Arquivo para outubro, 2010

Tropa de Elite 2 (2010) – Um perdão pelo ridículo primeiro capítulo

Eu ainda me lembro há poucos anos atrás,  quando um suposto filme vazou nos camelódromos Brasil afora e causou um grande alarde. Virou febre. Víamos muitos falando “o filme que mostra a realidade”, “o melhor do cinema nacional”, e até mesmo a expressão “faca na caveira” se tornando usual na conversa popular. Me lembro que havia pego o filme em questão, Tropa de Elite, com desconfiança, já que o “cinema nacional de circuito” é uma verdadeira lástima. E o filme só havia confirmado minha opinião. Uma sucessão de erros que a “Globosta filmes” havia feito com Cidade de Deus, Carandiru e afins. Pobre marginalizado, morte para todos os lados, tiros para todos os lados, um Rambo brasileiro…. Enfim, uma das piores produções do cinema nacional.  Com descrença também fui ver hoje Tropa de Elite 2 (apesar de menor, já que o trailer mostrava até que a abordagem do filme prometia). E me surpreendi; não por me deparar com uma obra prima nacional, mas por ver um filme que ousou mudar o que havia consolidado a franquia.

Aqui temos um Capitão Nascimento (Wagner Moura) amargurado: nem lembra o ser acéfalo do primeiro filme. [ATENÇÃO: Spoilers no resto deste parágrafo]. O filme começa com uma operação no presídio de Bangu, comandada pelo Capitão Nascimento. Só que no encalço do Capitão está o lider humanitário Diogo Fraga (Irhandir Santos), e após a operação no presídio culminar na morte de vários presos, Nascimento se vê encurralado pelo “sistema” e se torna Subsecretário de Segurança do Rio de Janeiro. Mas fora do campo de combate, Nascimento testemunha melhor a corrupção que o primeiro filme havia abordado e além disso vê o “nascimento” das milícias no Rio de Janeiro. Sem contar que esbarra com seus companheiros no filme anterior, como o “esculhambadamente divertido”  Fábio (Milhem Cortaz) e o Capitão Matias (André Ramiro), que apesar de não ter o mesmo destaque do filme anterior, é de certa forma essencial na trama. E nosso herói vê como o sistema está envolvido no crime, na ação das milícias e como a política depende disso, assim como toda essa sujeira acaba comprometendo seu filho Rafael (Pedro Van Held) e sua ex-mulher Rosane (Maria Ribeiro), que vejam só, está casada com o tal do Fraga.

Mas o maior acerto da obra, na minha opinião, é a “humanização” de Nascimento. Aqui não temos aquele “faca na caveira” que chega sentando o dedo e perguntando depois. Nascimento só não é afetado pelo que vê como também tenta combater isso e vê como as coisas acabam se juntando e destruindo sua vida. Você agora não tem a luta contra “o playboy que financia o tráfico”, mas sim a luta de um homem sozinho contra um sistema todo, e o pior de tudo, o sistema que o mesmo defendia antes.  José Padilha dirige o filme muito bem: as cenas são violentas quando devem ser, assim como a profundidade dos personagens é feita quando deve. O som é muito bem cuidado e a fotografia está anos luz daquela de Cidade de Deus que foi tão ovacionada.

Obviamente o filme tem defeitos MUITO graves. A narrativa inicial mostra o personagem de Fraga como um “empata foda”: nas palavras de Nascimento, um esquerdista que acha a polícia fascista e que só atrapalha a operação. [ATENÇÃO: SUPER SPOILER NESTA PRÓXIMA FRASE] Mesmo que no fim do filme as coisas fiquem diferentes,  com Nascimento e Fraga numa mesma posição perante o sistema, isso não fica bem resolvido e termina como uma crítica aos esquerdistas. Fora isso, permanece aqui a questão de marginalização do pobre: você não tem um contraponto que até mesmo justifique que os traficantes não representam a população carente em geral, e o pior de tudo, para um estrangeiro poderia parecer que a população carente apóia a milícia.

Mas o filme se torna sim uma surpresa. Nascimento é um homem sofrido, uma espécie de herói armagurado. Justiceiro, já que praticamente luta sozinho contra a corrupção toda. E também é uma película que bota o dedo na ferida muito mais que o outro filme: aqui o inimigo é a política, é ela que financia o crime (o que obviamente é a verdade de nossa sociedade).  Enfim, Tropa de Elite 2 é um filme infinitamente superior ao primeiro. Obviamente comete muitos erros também, mas aqui estes se perdem graças ao direcionamento certeiro da história. Infelizmente será mais uma vez essa imagem de um Brasil marginalizado que irá lá para fora, mas pelo menos mostrará mais como a elite também é uma peça fundamental neste “abismo” que vivemos.

Nota: 7,5.

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Ano de Produção: 2010

País: Brasil

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Elenco:

Wagner Moura (Nascimento)

Maria Ribeiro (Rosana)

Fraga (Irhandir Santos)

Russo (Sandro Rocha)

Mathias (André Ramiro)

Fábio (Milhem Cortaz)

Clara (Tainá Müller)

Produção: José Padilha e Marcos Prado

Direção de Arte: Tiago Teixeira

Música: Pedro Bromfman

Roteiro: José Padilha e Braúlio Montaviani

Direção: José Padilha

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Trailer:


Luzes na Escuridão (Laitakaupungin valot – 2006) – Um intenso mergulho introspectivo


Algumas obras são incompreendidas por determinados fatores. Pude acompanhar a exibição desta obra num evento realizado aqui no Rio de Janeiro, a “Maratona Odeon”, que acontece toda primeira sexta feira do mês. Pois bem, este filme foi exibido após o muito mal aproveitado “A Ressaca”, que ao contrário de minha opinião (que obviamente não é soberana) arrancou gargalhadas do público durante quase toda sua projeção. Acredito que por isso Luzes na Escuridão tenha sido tal mal compreendido, motivo de piada e tão odiado pelos presentes na ocasião.

Este filme completa uma trilogia do diretor Aki Kaurismäki , que conta com os filmes Nuvens Passageiras e Um Homem sem Passado. [Atenção: SPOILERS no restante deste parágrafo] Koistinen (Janne Hyytiäinen) é um vigilante de um shopping em Helsinki. Sua vida é monótona, se resumindo ao seu emprego, sua ida de volta para casa (onde costuma parar num trailer para fazer um lanche) e ir para um bar, beberalguma dose que seja. Porém, enquanto toma café em um restaurante, uma mulher se aproxima do vigilante (Mirja – Maria Järvenhelmi) e tenta uma aproximação com ele, que obviamente cai na sedução da mulher. Após uma saída e outra, Kostinen deixa que ela o acompanhe durante seu turno de trabalho, o que ele nem imagina que seja uma armadilha. Após colocar sonífero no café do vigilante, a mulher pega suas chaves e abre a joalheria do shopping. O objeto do furto vai para as mãos de uma organização criminosa para a qual a loira trabalha.E como você já pode esperar, Kostinen perde seu emprego, é incriminado, vai preso e após aparentar dar mais uma chance para a mulher, é preso novamente e até mesmo tenta se vingar dos vilões.Devo avisar que este não é um filme fácil de assistir: é extremamente arrastado, ospassos dos personagens parecem ser previamente contados, além de sua estrutura ser um tanto inconvencional.

Eu diria que esse filme parece uma leitura moderna e finlandesa deEdgar Allan Poe: a figura de Koistinen é pesada, deprimida, desolada. O personagem é a personificação da perda da esperança, demonstrando um sentimento diferente da desolação poucas vezes no filme, e em momentos um tanto subjetivos. Sua única esperança para o futuro é posta água abaixo,  sem chances de recuperação.  Mas não é apenas o pobre protagonista que tem essa característica: os outros personagens (até mesmo a vilã loira) parecem ter saído das obras de Poe, pessoas sem esperança, que parecem estar apenas esperando a morte chegar. O diretor soube trabalhar esta atmosfera muito bem. O filme tem momentos que nas mãos de outros diretores provavelmente soariam um tanto exagerados, mas aqui se mostram envolventes.Este filme é um grande exemplar da linha mais “soturna” do cinema europeu. A narrativa da história é muito bem trabalhada, em conjunto com a já característica atmosfera melancólica de um país com inverno predominante. É sem dúvida um daqueles filmes quenão servem para serem vistos junto de um grupo de amigos, pois o seu maior mérito é convidar o espectador à reflexão de sentimentos intensos e testemunhar uma narrativa incomum da vida cotidiana.

Minha opinião é que o fato de o filme ter sido vaiado na “Maratona Odeon” foi justamente por não se encaixar na proposta do evento, já que o mesmo não favorecia (por motivos óbvios) uma introspecção do espectador, ainda mais após um filme de comédia, que acabou gerando o curioso paradoxo entre um filme que retratava o cômico e o escatológico e um outro filme que retrata a vida de forma sombria e sem esperança.

Nota: 8,5
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País: Finlândia
Ano de Produção: 2006
Estúdio: Sputnik
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Elenco:

Janne Hyytiäinen – Koistinen

Maria Järvenhelmi – Mirja

Maria Heiskanen – Aila

Ilkka Koivula – Lindholm

Sergei Doudko – Russian

Música: Melrose

Fotografia: Timo Salminen

Edição, Produção, Roteiro e Direção: Aki Kaurismäki

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Trailer