Drama

Luzes na Escuridão (Laitakaupungin valot – 2006) – Um intenso mergulho introspectivo


Algumas obras são incompreendidas por determinados fatores. Pude acompanhar a exibição desta obra num evento realizado aqui no Rio de Janeiro, a “Maratona Odeon”, que acontece toda primeira sexta feira do mês. Pois bem, este filme foi exibido após o muito mal aproveitado “A Ressaca”, que ao contrário de minha opinião (que obviamente não é soberana) arrancou gargalhadas do público durante quase toda sua projeção. Acredito que por isso Luzes na Escuridão tenha sido tal mal compreendido, motivo de piada e tão odiado pelos presentes na ocasião.

Este filme completa uma trilogia do diretor Aki Kaurismäki , que conta com os filmes Nuvens Passageiras e Um Homem sem Passado. [Atenção: SPOILERS no restante deste parágrafo] Koistinen (Janne Hyytiäinen) é um vigilante de um shopping em Helsinki. Sua vida é monótona, se resumindo ao seu emprego, sua ida de volta para casa (onde costuma parar num trailer para fazer um lanche) e ir para um bar, beberalguma dose que seja. Porém, enquanto toma café em um restaurante, uma mulher se aproxima do vigilante (Mirja – Maria Järvenhelmi) e tenta uma aproximação com ele, que obviamente cai na sedução da mulher. Após uma saída e outra, Kostinen deixa que ela o acompanhe durante seu turno de trabalho, o que ele nem imagina que seja uma armadilha. Após colocar sonífero no café do vigilante, a mulher pega suas chaves e abre a joalheria do shopping. O objeto do furto vai para as mãos de uma organização criminosa para a qual a loira trabalha.E como você já pode esperar, Kostinen perde seu emprego, é incriminado, vai preso e após aparentar dar mais uma chance para a mulher, é preso novamente e até mesmo tenta se vingar dos vilões.Devo avisar que este não é um filme fácil de assistir: é extremamente arrastado, ospassos dos personagens parecem ser previamente contados, além de sua estrutura ser um tanto inconvencional.

Eu diria que esse filme parece uma leitura moderna e finlandesa deEdgar Allan Poe: a figura de Koistinen é pesada, deprimida, desolada. O personagem é a personificação da perda da esperança, demonstrando um sentimento diferente da desolação poucas vezes no filme, e em momentos um tanto subjetivos. Sua única esperança para o futuro é posta água abaixo,  sem chances de recuperação.  Mas não é apenas o pobre protagonista que tem essa característica: os outros personagens (até mesmo a vilã loira) parecem ter saído das obras de Poe, pessoas sem esperança, que parecem estar apenas esperando a morte chegar. O diretor soube trabalhar esta atmosfera muito bem. O filme tem momentos que nas mãos de outros diretores provavelmente soariam um tanto exagerados, mas aqui se mostram envolventes.Este filme é um grande exemplar da linha mais “soturna” do cinema europeu. A narrativa da história é muito bem trabalhada, em conjunto com a já característica atmosfera melancólica de um país com inverno predominante. É sem dúvida um daqueles filmes quenão servem para serem vistos junto de um grupo de amigos, pois o seu maior mérito é convidar o espectador à reflexão de sentimentos intensos e testemunhar uma narrativa incomum da vida cotidiana.

Minha opinião é que o fato de o filme ter sido vaiado na “Maratona Odeon” foi justamente por não se encaixar na proposta do evento, já que o mesmo não favorecia (por motivos óbvios) uma introspecção do espectador, ainda mais após um filme de comédia, que acabou gerando o curioso paradoxo entre um filme que retratava o cômico e o escatológico e um outro filme que retrata a vida de forma sombria e sem esperança.

Nota: 8,5
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País: Finlândia
Ano de Produção: 2006
Estúdio: Sputnik
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Elenco:

Janne Hyytiäinen – Koistinen

Maria Järvenhelmi – Mirja

Maria Heiskanen – Aila

Ilkka Koivula – Lindholm

Sergei Doudko – Russian

Música: Melrose

Fotografia: Timo Salminen

Edição, Produção, Roteiro e Direção: Aki Kaurismäki

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Trailer


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À Espera de um Milagre (The Green Mile – 1999): Soberbo!

Olá meus caros! Como vão?? Primeiramente, informo que infelizmente estive impossibilitado de postar no blog, graças a contratempos (leia-se bloqueio da internet em meu trabalho). Mas agora estou com um acesso estável, e prometo que sempre postarei sobre antigos e novos clássicos do cinema aqui 🙂 ! E em segundo, vamos falar sobre um filme que, na minha opinião, é o melhor do cinema americano: À Espera de um Milagre.

Vamos começar falando do diretor desta obra de arte: Frank Darabont. Enquanto muitos apontam como “gênio do cinema moderno americano” diretores como M. Night Shyamalan, eu digo que quem merece este título é nosso querido Darabont. Sinceramente, eu até acho que ele é injustiçado, por não ter um renome tão grande como cineastas modernos, como Shyamalan e cia.. Sinceramente, ainda não vi filme deste homem sair abaixo do ótimo. Um Sonho de Liberdade, Cine Majestic… o inquietante O Nevoeiro…. um novo gênio da sétima arte. Mas permita-me falar do filme em questão no artigo, que é seu maior acerto, sem dúvidas.

[ATENÇÃO: Spoilers nos próximos 2 parágrafos] The Green Mile, como a maior parte dos filmes dirigidos por Darabont, é uma adaptação cinematográfica de uma obra de Stephen King, lançada em 1996. O filme começa com Paul Edgecomb, um antigo guarda de prisão, em um asilo, tendo uma crise emocional ao ver o filme Top Hat, com Fred Astaire. Então, ele começa a contar sua história para uma amiga de asilo. Somos levados então ao ano de 1935, onde Paul Edgecomb (retratado aqui por Tom Hanks) era chefe de guarda de um corredor da morte, apelidado pelos guardas de “A Milha Verde”. Ao chegar um novo prisioneiro, todos se impressionam com o mesmo: um homem negro (num tempo em que o racismo era ainda intenso) com mais de 2 metros de altura, de aparência forte, mas de uma mentalidade inocente e até mesmo infantil. O nome dele é John Coffee (Michael Clarke Duncan) e foi condenado à morte pelo assassinato de duas garotinhas. Mas conforme o filme decorre, John Coffee demonstra ser uma boa pessoa, e guarda um segredo: ele tem o dom de curar as pessoas. O próprio Edgecomb tem uma infecção urinária curada por Coffee. Após isso, Edgecomb passa a ter uma nova imagem do prisioneiro.

Mas o filme tem outros personagens tão ricos quanto: Eduard Delacroix (Michael Jeter), um prisioneiro profundamente arrependido do que fez e que “doma” um outro personagem muito especial (e que tem grande importância na trama), o ratinho Mr. Jingles; Percy Wetmore (Doug Hutchison), um guarda imbecil que chegou ao cargo através do conhecimento de pessoas importantes; Will Bill (Sam Rockwell), um assassino que chega após John Coffee no corredor da morte, e também guarda um segredo essencial na trama, além  dos guardas Brutal Howell (o ótimo David Morse), Dean Stanton (Barry Pepper) e Hal Moores (James Crowmwell), que também presencia os milagres de Coffe, após sua mulher ser curada de um câncer terminal pelas mãos do prisioneiro.

Aliás, a forma como o filme é conduzido faz o espectador interagir de forma única na história. Mesmo que Coffee seja de certa forma o ponto principal do filme, a narrativa dá espaço para os outros personagens se desenvolverem e ganharem o carisma (ou ódio) do espectador. E como é característico nas obras de King, os personagens refletem vários aspectos que compõe o ser humano como um todo. Enfim, é um dos filmes com personagens melhor construídos que eu já vi.

A parte técnica também é uma maravilha. A imagem cria um clima nostálgico, mas não deixa de ser límpida e viva. Até mesmo o contraste da Milha Verde com a falta de cores (e porque não de vida?) do cenário da prisão causa um grande impacto. O som é muito bem cuidado, enfatizando nas ações dos personagens, tornado o resultado quase teatral. As atuações são ótimas. Tom Hanks, na minha opinião, é o melhor ator das duas últimas décadas, e aqui mais uma vez tem um resultado muito bom (mesmo que um pouco contido). Michael Clarke Duncan impressiona e tem uma atuação assombrosa. Até hoje fico pensando na burrada que a “Academia de Imbecilidades de Hollywood” fez em não dar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2000 para Duncan… Também outro que brilha é Sam Rockwell que conseguiu tornar Wild Bill extremamente repulsivo, mas sarcasticamente engraçado.

Além disso, dois dos maiores pontos da trama são as surpresas do final. Reconheço que pode ser um pouco difícil para algumas pessoas se “entusiasmar” em ver um filme de drama com 3 horas de duração, mas eu recomendo: é uma ótima experiência. Se os filmes americanos da atualidade tivessem pelo menos a metade da qualidade de Green Mile, o cinema americano estaria muito longe de seu atual estado lastimável. Mas Frank Darabont mostrou que até mesmo numa industria cinematográfica onde as cifras ofuscam a arte é possível alcançar resultados magníficos. E sua competência nos presenteou com um dos mais belos e intensos filmes da história.

Nota: 10,0


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País: Estados Unidos

Estúdio: Castle Rock

Ano de Lançamento: 1999

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Elenco:

Tom Hanks (Paul Edgecomb)

Michael Clarke Duncan (John Coffee)

David Morse (Brutus Howell)

Bonnie Hunt (Jan Edgecomb)

Sam Rockwell (Wild Bill)

Michael Jeter (Eduard Delacroix)

James Cromwell (Hal Moores)

Doug Hutchison (Percy Wetmore)

Edição: Richard Francis-Bruce

Música: Thomas Newman

Direção de Fotografia: David Tattersall

Direção de Arte: William Cruse

Produção: Frank Darabont e David Valdes

Roteiro: Frank Darabont, escrito a partir da obra de Stephen King

Direção: Frank Darabont.

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Trailer Original


Rocky – Um Lutador (1976) – Até mesmo os piores tem os seus melhores

Sabe aqueles atores absurdamente ruins, canastrões, fodões dos filmes de ação e tal? Pois é, a maior parte de seus filmes são puros caça níqueis, mas grande parte destes atores tem ao menos um filme que preste (claro que ainda há exceções, como Steven Seagal que é o cúmulo da ruindade, me desculpem seus fãs). Como exemplo podemos citar Hell, com Jean Claude van Damme, que é uma bela abordagem sobre o que o homem pode se tornar. O outro bom exemplo é o objeto deste artigo, essa produção do ano de 1976.

A história é a seguinte: Rocky Balboa (Sylvester Stallone) é um lutador de boxe do subúrbio da Filadélfia. Lutando esporiadicamente em um pequeno clube de boxe, acaba tendo que trabalhar para um agiota como cobrador para conseguir algum dinheiro a mais. Enquanto isso, o campeão mundial  Apollo Creed planeja realizar uma luta especial no ano novo de 1976 com um boxeador desconhecido, tanto para melhorar sua imagem como para oferecer o espetáculo que planejara. Então, Rocky é escolhido como esse desconhecido que terá a chance de lutar com o campeão mundial. Rocky então passa a lutar contra suas próprias dificuldades e se empenha ao máximo para a grande luta, enquanto Creed apenas está preocupado com sua imagem pública no espetáculo. Paralelo a isto, temos o romance entre Rocky e Adrian (Talia Shire) e seus conflitos emocionais.

O filme foi feito com pouco dinheiro, cerca de 1 milhão de dólares, e foi filmado em apenas 28 dias. O roteiro escrito por Stallone foi inspirado na luta em que o desconhecido Chuck Wepner conseguiu ficar 15 rounds em luta contra o campeão dos pesos pesados Muhammad Ali. Os produtores queriam outro ator no papel do boxeador, mas Stallone só concordou em passar o roteiro caso pudesse interpretar Rocky Balboa. Apesar da curta verba, o filme teve uma bem cuidada fotografia e a produção foi cuidadosa com diversos elementos. O filme foi um estrondoso sucesso e gerou uma franquia que, sinceramente, é deprimente.

Eu acredito que Rocky é um daqueles filmes que tem um significado de acordo com o que a pessoa lhe atribui inicialmente. Pessoalmente odeio boxe, e acredito que luta não é esporte, mas o contraponto posto aqui no filme entre um personagem cheio de problemas mas dedicado e um personagem egocêntrico e mesquinho que se preocupa apenas com o sucesso é muito bem trabalhado. O personagem de Creed reflete o oposto do esforço, das dificuldades que encontramos na vida. Balboa tem seus dilemas pessoais, é obrigado a trabalhar com algo que não gosta enquanto não consegue sucesso no que realmente ama e não ambiciona o ápice da luta, que seria a vitória, mas sim agüentar os 15 rounds no ringue. Os outros personagens da trama são muito bem trabalhos também, em especial o treinador Mickey (Burgess Meredith). Se a atuação de Stallone não é algo fabuloso (não entendo como é que ele foi indicado ao Oscar por este filme), o resto do elenco segura bem as rédeas.

Rocky é mais uma daquelas produções da época em que o cinema americano ainda rendia boas obras. Infelizmente o personagem se tornou uma “marionete” a favor dos ideiais americanos, atingindo este ápice no horrendo e ridículo Rocky IV. Mas aqui fica a lembrança de um filme que foi excelente e de um ator que pelo menos estrelou duas boas produções (a outra é a excêntrica e divertidíssima comédia Oscar).

Nota: 9,0

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País: Estados Unidos

Estúdio: United Artists

Ano: 1976

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Elenco:

Sylvester Stallone (Rocky Balboa)

Talia Shire (Adrian)

Burt Young (Paulie)

Carl Weathers (Appolo Creed)

Burgess Meredith (Mickey)

Joe Spinnel (Joe Gazzo)

Edição: Scott Conrad e Richard Halsey

Direção de Arte: James H. Spencer

Música: Bill Conti

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler

Roteiro: Sylvester Sttallone

Direção: John G. Avildsen

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Trailer Original


A Morte Cansada (Der Müde Tod, 1921) – O primeiro grande ato de Fritz Lang

Se houve um movimento extremamente simbólico e surrealista no cinema, este foi o Expressionismo Alemão. As obras originadas deste obscuro período do cinema alemão criaram elementos que perduram até hoje no cinema, além de ajudar a moldar o que hoje conhecemos como terror, suspense e de certa forma o noir. Infelizmente o gênero não foi muito duradouro, principalmente pelo fato de ter sido oprimido com a ascensão dos ideários nazistas já no final da década de 20. Dos envolvidos neste filão, vários foram expulsos ou fugiram da Alemanha, como o diretor Fritz Lang, que neste filme já mostrava elementos que perduraram em suas obras mais clássicas, como a trilogia do Dr. Mabuse e Os Ninbelungos.

A Morte Cansada foi a primeira incursão do diretor no Expressionismo Alemão. O filme conta a história de um casal (Lil Dagover, a Jane de O Gabinete do Dr. Caligari, e Walter Janssen) prestes a se casar. Ao pararem em uma taberna, encontram com um homem misterioso (o excelente Bernhard Goetzke), que na verdade é a Morte. Então, enquanto a jovem estava em um outro local da taberna, a Morte leva seu noivo e a jovem então se põe a buscar seu amado em vários pontos da cidade. Ao ver a alma de seu amado vagando, desmaia e é resgatada por um alquimista. Ao acordar, decide cometer suicídio e tentar buscar a alma de seu amado. Ao encontrar com a Morte, suplica para que tenha a vida de seu amado devolvida, e esta então lhe oferece três desafios: a jovem deve salvar 3 vidas (simbolizadas pelas chamas de 3 velas), em ambientes distintos. Na representação destas 3 histórias, ela vê as pessoas que devem ser salvas na imagem de seu noivo, mas não consegue salvar-las. Então, a Morte lhe dá mais uma chance, obrigando a jovem a oferecer a vida de alguém para ter a de seu noivo de volta.

A interpretação da Morte talvez seja a marca maior do filme: vemos aí não um ser demoníaco, mas sim uma criatura destinada a cumprir algo que é obrigada a fazer. Mesmo que durante as 3 histórias ela demonstre piedade e deseje ajudar os jovens, ela não pode deixar de cumprir seu dever, estando disfarçada nas 3 histórias passadas para cumprir seu objetivo. No fim das contas, a obra aborda as questões sobre o amor e a válvula de escape perante uma situação indesejada: o suicídio.

Enfim, A Morte Cansada na minha opinião é um dos melhores filmes do Expressionismo Alemão. Em primeiro lugar, é um dos que mais exemplifica as idéias essenciais do movimento. Em segundo lugar, por ser uma obra com uma estrutura narrativa tão rica e bem trabalhada. E em terceiro lugar por ser a apresentação do gênio Fritz Lang ao cinema e ser uma obra que definiu o padrão seguido por este diretor, seja em sua linha narrativa, seja em sua representação visual. Mesmo que você não goste de filmes mudos, dê uma chance a si mesmo para assistir uma obra tão cheia de qualidades. Mais do que um filme, A Morte Cansada é uma abordagem filosófica sobre a vida e suas conseqüências.

Nota: 9,0

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País de Produção: Alemanha

Ano: 1921

Estúdio: Decla Bioscope

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Elenco:

Lil Dagover (A Jovem)

Walter Janssen (O Jovem)

Bernhard Goetzke (A Morte)

Hans Sterneberg (O Prefeito)

Paul Rehkopth (O Coveiro)

Karl Rucket (O Reverendo)

Karl Platen (O Alquimista)

Direção de Arte: Robert Herlth, Walter Rohrig e Hermann Warm

Cinematografia: Bruno Mondi, Erich Nitschmann, Herrmann Saalfrank e Fritz Arno Wagner

Produção: Erich Pommer

Roteiro: Fritz Lang e Thea von Arbour

Direção: Fritz Lang

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Primeira parte do filme (siga os links no final do video para assistir as partes seguintes)


Chaplin (1992) – A vida do gênio na tela que ele popularizou

Filmes biográficos são, na minha opinião, trabalhos muito arriscados. Além de um estudo minucioso sobre a vida do referido, a equipe de produção deve ainda fazer uma análise do mundo à volta do personagem e fazer fluir o impacto sobre o personagem de forma não artificial. Chaplin é um filme que cumpre seu papel e nós traz uma narrativa sobre a trajetória deste gênio, num andamento repleto de momentos emocionantes e alguns levemente cômicos, inspirados no estilo das próprias obras de Charlie.

O espectador é apresentado à trajetória de Chaplin iniciando de sua infância até os tempos em que obteve destaque na Keystone e fundou a United Artists. Com a sua ascensão no cinema, Chaplin obteve um grande destaque no mundo artístico e rapidamente se tornou detentor de uma grande fortuna. Em contraste a isto, o  diretor Richard Attenborough utilizou os dramas pessoais de Chaplin para mostrar que mesmo com a fama o ator era uma pessoa com vários problemas. Como na autobiografia de Chaplin, cujo roteiro é baseado, o filme explora a relação de Chaplin com suas várias experiências amorosas e posteriores conflitos. Além disso, é importante ressaltar a boa retratação do período em que Chaplin passou a ser investigado pelo FBI, o impacto de produção e lançamento de O Grande Ditador e seu posterior exílio.

O cast de bons atores torna o resultado ainda mais satisfatório. Robert Downey Jr. faz uma boa atuação, apesar de em muitos momentos eu achar que o ator se conteve demais. Anthony Hopkins ainda vivia seus bons tempos e garante firmeza ao seu reporter George Hayden, curiosamente o único personagem fictício de destaque no filme. Vale também destacar a atuação de Geraldine Chaplin, filha do cineasta, interpretando a desequilibrada Hannah Chaplin, sua própria avó. A adaptação da história foi boa e seguiu literalmente vários pontos do livro Minha Vida, porém, como era de se esperar, falhou em alguns momentos ao retratar Charlie de forma tão trágica. Sabemos que Chaplin teve uma conturbada vida pessoal, mas às vezes o filme passa a impressão de que tudo na vida do cineasta era um inferno. Num filme sobre um dos maiores gênios do cinema, ficou faltando um pouco do que ele mais nos trouxe através da tela: alegria. Mesmo que em alguns momentos haja humor, e até mesmo cenas de seus filmes recriadas, fica a impressão de que Charlie era um homem “rabugento”.

Mesmo com algumas falhas da retratação, Chaplin retrata bem a vida do gênio do cinema. Quando vejo este filme, fico com “nostalgia de uma época que não vivi”, ao ver os atores interpretando as relações de  Chaplin, Douglas Fairbanks e Mary Pickford numa época em que o cinema era uma das mais genuínas expressões da arte e mente humana. Curioso também é ver como o governo americano perseguiu duramente uma das pessoas que ajudou a popularizar um dos meios que na época de sua perseguição já era uma grande fonte de exploração capitalista… Enfim, Chaplin é um filme totalmente recomendado, uma viagem no tempo e vida de um dos maiores ícones da arte mundial.

Nota: 8,0


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País de Produção: Inglaterra/ Estados Unidos/ França

Ano de Produção: 1992

Distribuição: Carolco Pictures/ Canal +

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Elenco:

Robert Downey Jr. (Charles Chaplin)

Anthony Hopkins  (George Hayden)

Paul Rhys (Sidney Chaplin)

Geraldine Chaplin (Hannah Chaplin)

Kevin Kline (Douglas Fairbanks)

Maria Pitillo (May Pickford)

Moira Kelly (Oona O’Neil)

John Tawn (Fred Karno)

Milla Jovovich (Mildred Harris)

Kevin Dunn (Edgar Hoover)

Direção de arte: Stuart Craig

Fotografia: Sven Nykvist

Música: John Barry e José Padilla

Roteiro: Willian Boyd e Briand Formes, baseado nos livros Minha Vida de Charles Chaplin e Chaplin: Vida e Arte de David Robinson

Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar e Terence A. Clegg

Direção: Richard Attenborough

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Trailer Original