Posts com tag “Cinema

Tropa de Elite 2 (2010) – Um perdão pelo ridículo primeiro capítulo

Eu ainda me lembro há poucos anos atrás,  quando um suposto filme vazou nos camelódromos Brasil afora e causou um grande alarde. Virou febre. Víamos muitos falando “o filme que mostra a realidade”, “o melhor do cinema nacional”, e até mesmo a expressão “faca na caveira” se tornando usual na conversa popular. Me lembro que havia pego o filme em questão, Tropa de Elite, com desconfiança, já que o “cinema nacional de circuito” é uma verdadeira lástima. E o filme só havia confirmado minha opinião. Uma sucessão de erros que a “Globosta filmes” havia feito com Cidade de Deus, Carandiru e afins. Pobre marginalizado, morte para todos os lados, tiros para todos os lados, um Rambo brasileiro…. Enfim, uma das piores produções do cinema nacional.  Com descrença também fui ver hoje Tropa de Elite 2 (apesar de menor, já que o trailer mostrava até que a abordagem do filme prometia). E me surpreendi; não por me deparar com uma obra prima nacional, mas por ver um filme que ousou mudar o que havia consolidado a franquia.

Aqui temos um Capitão Nascimento (Wagner Moura) amargurado: nem lembra o ser acéfalo do primeiro filme. [ATENÇÃO: Spoilers no resto deste parágrafo]. O filme começa com uma operação no presídio de Bangu, comandada pelo Capitão Nascimento. Só que no encalço do Capitão está o lider humanitário Diogo Fraga (Irhandir Santos), e após a operação no presídio culminar na morte de vários presos, Nascimento se vê encurralado pelo “sistema” e se torna Subsecretário de Segurança do Rio de Janeiro. Mas fora do campo de combate, Nascimento testemunha melhor a corrupção que o primeiro filme havia abordado e além disso vê o “nascimento” das milícias no Rio de Janeiro. Sem contar que esbarra com seus companheiros no filme anterior, como o “esculhambadamente divertido”  Fábio (Milhem Cortaz) e o Capitão Matias (André Ramiro), que apesar de não ter o mesmo destaque do filme anterior, é de certa forma essencial na trama. E nosso herói vê como o sistema está envolvido no crime, na ação das milícias e como a política depende disso, assim como toda essa sujeira acaba comprometendo seu filho Rafael (Pedro Van Held) e sua ex-mulher Rosane (Maria Ribeiro), que vejam só, está casada com o tal do Fraga.

Mas o maior acerto da obra, na minha opinião, é a “humanização” de Nascimento. Aqui não temos aquele “faca na caveira” que chega sentando o dedo e perguntando depois. Nascimento só não é afetado pelo que vê como também tenta combater isso e vê como as coisas acabam se juntando e destruindo sua vida. Você agora não tem a luta contra “o playboy que financia o tráfico”, mas sim a luta de um homem sozinho contra um sistema todo, e o pior de tudo, o sistema que o mesmo defendia antes.  José Padilha dirige o filme muito bem: as cenas são violentas quando devem ser, assim como a profundidade dos personagens é feita quando deve. O som é muito bem cuidado e a fotografia está anos luz daquela de Cidade de Deus que foi tão ovacionada.

Obviamente o filme tem defeitos MUITO graves. A narrativa inicial mostra o personagem de Fraga como um “empata foda”: nas palavras de Nascimento, um esquerdista que acha a polícia fascista e que só atrapalha a operação. [ATENÇÃO: SUPER SPOILER NESTA PRÓXIMA FRASE] Mesmo que no fim do filme as coisas fiquem diferentes,  com Nascimento e Fraga numa mesma posição perante o sistema, isso não fica bem resolvido e termina como uma crítica aos esquerdistas. Fora isso, permanece aqui a questão de marginalização do pobre: você não tem um contraponto que até mesmo justifique que os traficantes não representam a população carente em geral, e o pior de tudo, para um estrangeiro poderia parecer que a população carente apóia a milícia.

Mas o filme se torna sim uma surpresa. Nascimento é um homem sofrido, uma espécie de herói armagurado. Justiceiro, já que praticamente luta sozinho contra a corrupção toda. E também é uma película que bota o dedo na ferida muito mais que o outro filme: aqui o inimigo é a política, é ela que financia o crime (o que obviamente é a verdade de nossa sociedade).  Enfim, Tropa de Elite 2 é um filme infinitamente superior ao primeiro. Obviamente comete muitos erros também, mas aqui estes se perdem graças ao direcionamento certeiro da história. Infelizmente será mais uma vez essa imagem de um Brasil marginalizado que irá lá para fora, mas pelo menos mostrará mais como a elite também é uma peça fundamental neste “abismo” que vivemos.

Nota: 7,5.

————————————————

Ano de Produção: 2010

País: Brasil

————————————————

Elenco:

Wagner Moura (Nascimento)

Maria Ribeiro (Rosana)

Fraga (Irhandir Santos)

Russo (Sandro Rocha)

Mathias (André Ramiro)

Fábio (Milhem Cortaz)

Clara (Tainá Müller)

Produção: José Padilha e Marcos Prado

Direção de Arte: Tiago Teixeira

Música: Pedro Bromfman

Roteiro: José Padilha e Braúlio Montaviani

Direção: José Padilha

———————————

Trailer:

Anúncios

Luzes na Escuridão (Laitakaupungin valot – 2006) – Um intenso mergulho introspectivo


Algumas obras são incompreendidas por determinados fatores. Pude acompanhar a exibição desta obra num evento realizado aqui no Rio de Janeiro, a “Maratona Odeon”, que acontece toda primeira sexta feira do mês. Pois bem, este filme foi exibido após o muito mal aproveitado “A Ressaca”, que ao contrário de minha opinião (que obviamente não é soberana) arrancou gargalhadas do público durante quase toda sua projeção. Acredito que por isso Luzes na Escuridão tenha sido tal mal compreendido, motivo de piada e tão odiado pelos presentes na ocasião.

Este filme completa uma trilogia do diretor Aki Kaurismäki , que conta com os filmes Nuvens Passageiras e Um Homem sem Passado. [Atenção: SPOILERS no restante deste parágrafo] Koistinen (Janne Hyytiäinen) é um vigilante de um shopping em Helsinki. Sua vida é monótona, se resumindo ao seu emprego, sua ida de volta para casa (onde costuma parar num trailer para fazer um lanche) e ir para um bar, beberalguma dose que seja. Porém, enquanto toma café em um restaurante, uma mulher se aproxima do vigilante (Mirja – Maria Järvenhelmi) e tenta uma aproximação com ele, que obviamente cai na sedução da mulher. Após uma saída e outra, Kostinen deixa que ela o acompanhe durante seu turno de trabalho, o que ele nem imagina que seja uma armadilha. Após colocar sonífero no café do vigilante, a mulher pega suas chaves e abre a joalheria do shopping. O objeto do furto vai para as mãos de uma organização criminosa para a qual a loira trabalha.E como você já pode esperar, Kostinen perde seu emprego, é incriminado, vai preso e após aparentar dar mais uma chance para a mulher, é preso novamente e até mesmo tenta se vingar dos vilões.Devo avisar que este não é um filme fácil de assistir: é extremamente arrastado, ospassos dos personagens parecem ser previamente contados, além de sua estrutura ser um tanto inconvencional.

Eu diria que esse filme parece uma leitura moderna e finlandesa deEdgar Allan Poe: a figura de Koistinen é pesada, deprimida, desolada. O personagem é a personificação da perda da esperança, demonstrando um sentimento diferente da desolação poucas vezes no filme, e em momentos um tanto subjetivos. Sua única esperança para o futuro é posta água abaixo,  sem chances de recuperação.  Mas não é apenas o pobre protagonista que tem essa característica: os outros personagens (até mesmo a vilã loira) parecem ter saído das obras de Poe, pessoas sem esperança, que parecem estar apenas esperando a morte chegar. O diretor soube trabalhar esta atmosfera muito bem. O filme tem momentos que nas mãos de outros diretores provavelmente soariam um tanto exagerados, mas aqui se mostram envolventes.Este filme é um grande exemplar da linha mais “soturna” do cinema europeu. A narrativa da história é muito bem trabalhada, em conjunto com a já característica atmosfera melancólica de um país com inverno predominante. É sem dúvida um daqueles filmes quenão servem para serem vistos junto de um grupo de amigos, pois o seu maior mérito é convidar o espectador à reflexão de sentimentos intensos e testemunhar uma narrativa incomum da vida cotidiana.

Minha opinião é que o fato de o filme ter sido vaiado na “Maratona Odeon” foi justamente por não se encaixar na proposta do evento, já que o mesmo não favorecia (por motivos óbvios) uma introspecção do espectador, ainda mais após um filme de comédia, que acabou gerando o curioso paradoxo entre um filme que retratava o cômico e o escatológico e um outro filme que retrata a vida de forma sombria e sem esperança.

Nota: 8,5
———————– –
País: Finlândia
Ano de Produção: 2006
Estúdio: Sputnik
——————- – —
Elenco:

Janne Hyytiäinen – Koistinen

Maria Järvenhelmi – Mirja

Maria Heiskanen – Aila

Ilkka Koivula – Lindholm

Sergei Doudko – Russian

Música: Melrose

Fotografia: Timo Salminen

Edição, Produção, Roteiro e Direção: Aki Kaurismäki

———————————————–

Trailer



Avatar (2009) – Maquiando um roteiro retalhado

Há mais de 10 anos, um certo filme causava um alvoroço absurdo no mundo. Como se ninguém tivesse jamais visto um filme de romance na vida, o filme em questão arrebentou na bilheteria de todos os países em que foi exibido. Este filme, tido como uma obra de arte para muitos, COPIOU vários elementos de uma mesma produção, realizada um ano antes. Pois bem, o filme em questão é Titanic, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. Um ano antes foi lançado um filme também baseado na tragédia do navio da década de 10, desta vez com astros como Catherina Zeta Jones e George C. Scott. Mas o primeiro filme foi feito para a tv, e não causou muito alarde. Então, os executivos da Paramount viram aí um baú de ouro mal explorado, e então decidiram investir numa luxuosa produção sobre a mesma história, inclusive copiando cenas na cara de pau do filme do ano anterior. O resultado: um filme chato, onde a produção impecável apenas se salva. Então em 2009, vimos algo do tipo acontecer novamente, com Avatar. A coincidência? As duas obras foram dirigidas pelo mesmo homem: James Cameron.

Tudo bem, Avatar não copiou descaradamente uma obra anterior. Desta vez a cópia foi de fragmentos de diversas obras anteriores. Mas, será que a história de Avatar é tão desprovida de originalidade? Sim e não. [ATENÇÃO: Spoiles no resto deste parágrafo e no seguinte] Os seres humanos, em toda sua arrogância, procuram minérios pelo Universo. Então numa lua (acho que é isso, se não um planeta mesmo) chamada Pandora, é encontrado um minério que pode dar uma ajuda na questão da crise energética do planeta Terra. Porém, existe um problema: o lugar é muito tóxico, e os seres humanos não resistiriam em sua atmosfera. Então, um grupo de cientistas cria um organismo que pode ser ligado mentalmente aos humanos: estes seres são os Avatares em questão. Sua aparência é semelhante a dos Na’vi, serem que habitam Pandora.

Então, somos apresentados ao ex-fuzileiro naval Jake Suly (Sam Worthington), que faz parte da operação junto com a doutora Grace (Sigourney Weaver) e Norm Spellman (Joel Moore), que também possuem seus avatares. Pois bem, eles se adentram em Pandora para uma missão de reconhecimento, porém em um acidente JAke cai do helicóptero em que estava e se vê perdido no local. Então, numa cena bastante previsível, ele conhece a Na’vi Neytiri (Zoe Saldana), que é filha do líder da tribo. A história se desenrola num ritmo lento, e como o espectador já desconfia, Jake entra numa crise de identidade, vendo que o que eles estavam fazendo é errado e então passa a lutar contra a ambição dos militares americanos. Só que isso não irá agradar o Coronel Miles (Stephen Lang), líder da operação. A luta então é travada e várias reviravoltas (que você já cansou de ver em outros filmes) acontecem: morre um dos amigos de Jake, ele é visto como traidor, ele é perdoado, ele do nada vira o fodão e destrói tudo, etc, etc, etc.

Este é o pior defeito do filme: sua previsibilidade. Sinceramente, eu matei o resto do filme todo no cinema ainda nos seus 30 minutos de projeção. Talvez por isso eu tenha achado o filme tão “bobo”. Meu caro leitor, deixo claro que é minha opinião pessoal sobre a obra e não estou aqui querendo ser dono da verdade, mas na minha opinião Avatar foi o maior desperdício de dinheiro da história de Hollywood. O assombroso investimento do filme não justifica isso. Convenhamos: o filme é muito bonito. A produção gráfica é super caprichada, assim como os efeitos e a parte sonora. Mas mesmo assim não dá para engolir. Toy Story foi uma formidável inovação, numa história curiosa, tornando o conjunto um tant divertido. Assim tudo bem. Mas Avatar “inova” formulas tão batidas que hoje em dia se tornam chatas. O pior é ver uma porrada de gente (mesmo da “crítica especializada”) falando que o roteiro é uma maravilha. Então porque essa mesma crítica especializada escurraçou O Ultimo Samurai (com Tom Cruise) cujo personagem de Jake Sully se mostra completamente baseado?? Porque então essa mesma crítica chamou Uma Verdade Inconveniente de “raciocínio alarmista e infundado sobre o meio ambiente”, se Avatar põe em prática até mesmo um elemento teorizado por Al Gore??? E quantas vezes nós já vimos o desenrolar do roteiro de Avatar em filmes “satanizados” pelos “críticos” do New York Times e afins?

E deixe-me falar de James Cameron, que mencionei e até havia esquecido aí em cima. Ele é até um bom diretor. As cenas são bem dirigidas, inclusive algumas partes com maior dose de ação. Mas isso não evita o diretor de insistir em alguns momentos monótonos e outros cujo o heroísmo do personagem principal é focado de tal forma que parece que o filme virou um remake de Ben-Hur. Além de muitas piadinhas em momentos críticos serem proferidas (o maniazinha maldita essa dos cineastas americanos). Mas minha maior crítica a esse cidadão nem se dá no quesito técnico, mas sim por sua postura em relação à obra. O diretor enfatizou na mensagem sobre o meio ambiente. Tudo bem, ela está presente, mas o diretor não deve ter se lembrado que muitas das empresas que deram suporte ao filme no exterior são algumas das maiores agressoras do ambiente (como a Nestlé). Ele mencionou que a história é muito boa e bem trabalhada. Mas ele deve ter se esquecido que 99,9% dos espectadores já tinha visto algum romance ou aventura americanos. E pensar que ele demorou tanto tento para recortar partes de outros roteiros e encaixar aqui…. Por fim, ele enfatizou a inovação tecnológica do filme. Aí sim, concordo com ele em gênero, número e grau. Mas, do que adianta essa maquiagem num filme tão vazio? Afinal, se ele se esqueceu, estamos tratando de CINEMA, e não de um espetáculo tecnológico. E infelizmente este é o caminho que o cinema americano tem trilhado durante estes últimos anos.

Nota: 4,5

— – – –

País: Estados Unidos

Ano de Produção: 2009

Estúdio: Fox

– — – – — – – –

Elenco:

Sam Worthington (Jake Sully)

Zoe Saldana (Neyriti)

Sigourney Weaver (Dra. Grace Augustine)

Stephen Lang (Coronel Miles Quaritch)

Joel Moore (Norm Spellman)

Michelle Rodriguez (Trudy Chalcon)

Música: James Horner

Produtores: James Cameron e Jon Landau

Roteiro e Direção: James Cameron

— – – – – – – — – ——-

Trailer Original


À Espera de um Milagre (The Green Mile – 1999): Soberbo!

Olá meus caros! Como vão?? Primeiramente, informo que infelizmente estive impossibilitado de postar no blog, graças a contratempos (leia-se bloqueio da internet em meu trabalho). Mas agora estou com um acesso estável, e prometo que sempre postarei sobre antigos e novos clássicos do cinema aqui 🙂 ! E em segundo, vamos falar sobre um filme que, na minha opinião, é o melhor do cinema americano: À Espera de um Milagre.

Vamos começar falando do diretor desta obra de arte: Frank Darabont. Enquanto muitos apontam como “gênio do cinema moderno americano” diretores como M. Night Shyamalan, eu digo que quem merece este título é nosso querido Darabont. Sinceramente, eu até acho que ele é injustiçado, por não ter um renome tão grande como cineastas modernos, como Shyamalan e cia.. Sinceramente, ainda não vi filme deste homem sair abaixo do ótimo. Um Sonho de Liberdade, Cine Majestic… o inquietante O Nevoeiro…. um novo gênio da sétima arte. Mas permita-me falar do filme em questão no artigo, que é seu maior acerto, sem dúvidas.

[ATENÇÃO: Spoilers nos próximos 2 parágrafos] The Green Mile, como a maior parte dos filmes dirigidos por Darabont, é uma adaptação cinematográfica de uma obra de Stephen King, lançada em 1996. O filme começa com Paul Edgecomb, um antigo guarda de prisão, em um asilo, tendo uma crise emocional ao ver o filme Top Hat, com Fred Astaire. Então, ele começa a contar sua história para uma amiga de asilo. Somos levados então ao ano de 1935, onde Paul Edgecomb (retratado aqui por Tom Hanks) era chefe de guarda de um corredor da morte, apelidado pelos guardas de “A Milha Verde”. Ao chegar um novo prisioneiro, todos se impressionam com o mesmo: um homem negro (num tempo em que o racismo era ainda intenso) com mais de 2 metros de altura, de aparência forte, mas de uma mentalidade inocente e até mesmo infantil. O nome dele é John Coffee (Michael Clarke Duncan) e foi condenado à morte pelo assassinato de duas garotinhas. Mas conforme o filme decorre, John Coffee demonstra ser uma boa pessoa, e guarda um segredo: ele tem o dom de curar as pessoas. O próprio Edgecomb tem uma infecção urinária curada por Coffee. Após isso, Edgecomb passa a ter uma nova imagem do prisioneiro.

Mas o filme tem outros personagens tão ricos quanto: Eduard Delacroix (Michael Jeter), um prisioneiro profundamente arrependido do que fez e que “doma” um outro personagem muito especial (e que tem grande importância na trama), o ratinho Mr. Jingles; Percy Wetmore (Doug Hutchison), um guarda imbecil que chegou ao cargo através do conhecimento de pessoas importantes; Will Bill (Sam Rockwell), um assassino que chega após John Coffee no corredor da morte, e também guarda um segredo essencial na trama, além  dos guardas Brutal Howell (o ótimo David Morse), Dean Stanton (Barry Pepper) e Hal Moores (James Crowmwell), que também presencia os milagres de Coffe, após sua mulher ser curada de um câncer terminal pelas mãos do prisioneiro.

Aliás, a forma como o filme é conduzido faz o espectador interagir de forma única na história. Mesmo que Coffee seja de certa forma o ponto principal do filme, a narrativa dá espaço para os outros personagens se desenvolverem e ganharem o carisma (ou ódio) do espectador. E como é característico nas obras de King, os personagens refletem vários aspectos que compõe o ser humano como um todo. Enfim, é um dos filmes com personagens melhor construídos que eu já vi.

A parte técnica também é uma maravilha. A imagem cria um clima nostálgico, mas não deixa de ser límpida e viva. Até mesmo o contraste da Milha Verde com a falta de cores (e porque não de vida?) do cenário da prisão causa um grande impacto. O som é muito bem cuidado, enfatizando nas ações dos personagens, tornado o resultado quase teatral. As atuações são ótimas. Tom Hanks, na minha opinião, é o melhor ator das duas últimas décadas, e aqui mais uma vez tem um resultado muito bom (mesmo que um pouco contido). Michael Clarke Duncan impressiona e tem uma atuação assombrosa. Até hoje fico pensando na burrada que a “Academia de Imbecilidades de Hollywood” fez em não dar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2000 para Duncan… Também outro que brilha é Sam Rockwell que conseguiu tornar Wild Bill extremamente repulsivo, mas sarcasticamente engraçado.

Além disso, dois dos maiores pontos da trama são as surpresas do final. Reconheço que pode ser um pouco difícil para algumas pessoas se “entusiasmar” em ver um filme de drama com 3 horas de duração, mas eu recomendo: é uma ótima experiência. Se os filmes americanos da atualidade tivessem pelo menos a metade da qualidade de Green Mile, o cinema americano estaria muito longe de seu atual estado lastimável. Mas Frank Darabont mostrou que até mesmo numa industria cinematográfica onde as cifras ofuscam a arte é possível alcançar resultados magníficos. E sua competência nos presenteou com um dos mais belos e intensos filmes da história.

Nota: 10,0


—  – – – ———————–

País: Estados Unidos

Estúdio: Castle Rock

Ano de Lançamento: 1999

– – —————————-

Elenco:

Tom Hanks (Paul Edgecomb)

Michael Clarke Duncan (John Coffee)

David Morse (Brutus Howell)

Bonnie Hunt (Jan Edgecomb)

Sam Rockwell (Wild Bill)

Michael Jeter (Eduard Delacroix)

James Cromwell (Hal Moores)

Doug Hutchison (Percy Wetmore)

Edição: Richard Francis-Bruce

Música: Thomas Newman

Direção de Fotografia: David Tattersall

Direção de Arte: William Cruse

Produção: Frank Darabont e David Valdes

Roteiro: Frank Darabont, escrito a partir da obra de Stephen King

Direção: Frank Darabont.

—- — – – – – ——————

Trailer Original


Rocky – Um Lutador (1976) – Até mesmo os piores tem os seus melhores

Sabe aqueles atores absurdamente ruins, canastrões, fodões dos filmes de ação e tal? Pois é, a maior parte de seus filmes são puros caça níqueis, mas grande parte destes atores tem ao menos um filme que preste (claro que ainda há exceções, como Steven Seagal que é o cúmulo da ruindade, me desculpem seus fãs). Como exemplo podemos citar Hell, com Jean Claude van Damme, que é uma bela abordagem sobre o que o homem pode se tornar. O outro bom exemplo é o objeto deste artigo, essa produção do ano de 1976.

A história é a seguinte: Rocky Balboa (Sylvester Stallone) é um lutador de boxe do subúrbio da Filadélfia. Lutando esporiadicamente em um pequeno clube de boxe, acaba tendo que trabalhar para um agiota como cobrador para conseguir algum dinheiro a mais. Enquanto isso, o campeão mundial  Apollo Creed planeja realizar uma luta especial no ano novo de 1976 com um boxeador desconhecido, tanto para melhorar sua imagem como para oferecer o espetáculo que planejara. Então, Rocky é escolhido como esse desconhecido que terá a chance de lutar com o campeão mundial. Rocky então passa a lutar contra suas próprias dificuldades e se empenha ao máximo para a grande luta, enquanto Creed apenas está preocupado com sua imagem pública no espetáculo. Paralelo a isto, temos o romance entre Rocky e Adrian (Talia Shire) e seus conflitos emocionais.

O filme foi feito com pouco dinheiro, cerca de 1 milhão de dólares, e foi filmado em apenas 28 dias. O roteiro escrito por Stallone foi inspirado na luta em que o desconhecido Chuck Wepner conseguiu ficar 15 rounds em luta contra o campeão dos pesos pesados Muhammad Ali. Os produtores queriam outro ator no papel do boxeador, mas Stallone só concordou em passar o roteiro caso pudesse interpretar Rocky Balboa. Apesar da curta verba, o filme teve uma bem cuidada fotografia e a produção foi cuidadosa com diversos elementos. O filme foi um estrondoso sucesso e gerou uma franquia que, sinceramente, é deprimente.

Eu acredito que Rocky é um daqueles filmes que tem um significado de acordo com o que a pessoa lhe atribui inicialmente. Pessoalmente odeio boxe, e acredito que luta não é esporte, mas o contraponto posto aqui no filme entre um personagem cheio de problemas mas dedicado e um personagem egocêntrico e mesquinho que se preocupa apenas com o sucesso é muito bem trabalhado. O personagem de Creed reflete o oposto do esforço, das dificuldades que encontramos na vida. Balboa tem seus dilemas pessoais, é obrigado a trabalhar com algo que não gosta enquanto não consegue sucesso no que realmente ama e não ambiciona o ápice da luta, que seria a vitória, mas sim agüentar os 15 rounds no ringue. Os outros personagens da trama são muito bem trabalhos também, em especial o treinador Mickey (Burgess Meredith). Se a atuação de Stallone não é algo fabuloso (não entendo como é que ele foi indicado ao Oscar por este filme), o resto do elenco segura bem as rédeas.

Rocky é mais uma daquelas produções da época em que o cinema americano ainda rendia boas obras. Infelizmente o personagem se tornou uma “marionete” a favor dos ideiais americanos, atingindo este ápice no horrendo e ridículo Rocky IV. Mas aqui fica a lembrança de um filme que foi excelente e de um ator que pelo menos estrelou duas boas produções (a outra é a excêntrica e divertidíssima comédia Oscar).

Nota: 9,0

— – – – – – – – – – —

País: Estados Unidos

Estúdio: United Artists

Ano: 1976

—- – – – – – – – – – –

Elenco:

Sylvester Stallone (Rocky Balboa)

Talia Shire (Adrian)

Burt Young (Paulie)

Carl Weathers (Appolo Creed)

Burgess Meredith (Mickey)

Joe Spinnel (Joe Gazzo)

Edição: Scott Conrad e Richard Halsey

Direção de Arte: James H. Spencer

Música: Bill Conti

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler

Roteiro: Sylvester Sttallone

Direção: John G. Avildsen

———————— – –

Trailer Original


Os primeiros lordes do horror

Muito antes de “Jasons”, “Freddys” e similares aparecerem no cinema, a tela prateada contou com a presença de criaturas fantásticas em histórias envoltas em mistérios, com aquele clima denso e arrastado que marcou o início do cinema de horror. Porém, ao contrário dos referidos monstros modernos, que são vividos por variados atores (com a exceção de Freddy Krueger, que foi interpretado em 8 filmes por Robert Englund), aquelas criaturas do cinema em preto e branco ganhavam vida através de um pequeno grupo de atores que trilharam sua carreira no cinema de horror. Irei apresentar-lhes os principais atores que, digamos, eram “especializados em terror”, da primeira época do cinema de horror, ou caso vocês prefiram, “A Era de Ouro da Universal”. O intuito deste artigo é apenas contar um pouco da vida destes gigantes da tela, futuramente apresentarei um artigo especial para cada um deles.

 

 

Lon Chaney (Leonidas Frank Chaney)

 

 


De fato Lon Chaney não atuou exatamente em filmes de horror na maior parte da vida. Suas atuações eram de personagens enigmáticos e muitas vezes tétricos, o que ajudou a trilhar o que um dia viria a ser o filme de horror. Apenas na metade da década de 20 estrelou filmes do gênero. Infelizmente são poucas as obras, já que o grande ator faleceu em 1931, vitimado por um câncer.

Chaney nasceu em 1 de abril de 1883, no Colorado, Estados Unidos. Seus pais eram surdo-mudos e ele foi criado em um ambiente circense. Devido a isto, desenvolveu uma grande habilidade em comunicação visual e no circo aprendeu a criar a própria maquiagem, se tornando um prolífico ator no teatro. Após um casamento conturbado com Cleva Creighton (que gerou seu único filho, Creighton Chaney), Chaney começou a se firmar no cinema e finalmente obter um grande reconhecimento.

Suas interpretações de loucos, deficientes e seres mórbidos o transformaram na melhor escolha para filmes de horror. Então, no ano de 1923, Chaney apavorou o público no clássico O Corcunda de Notre Dame (The Hunchback of Notre Dame). A maquiagem impecável, seu jeito desengonçado e levemente débil levaram o nome de Chaney às alturas e lhe garantiram um outro papel de destaque no gênero, a retratação de Eric em O Fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera, 1925). Mais uma vez o ator assustava o público com uma maquiagem bizarra em uma história envolta de mistérios e mortes.

 

 

 

Chaney em O Fantasma da Ópera (1925)

 

 

 

 

A carreira cinematográfica de Chaney foi muito rica, com filmes clássicos como The Unholy Three (1925 e o remake sonoro de 1930, único filme falado de Chaney), He Who Gets Sllaped (1923) e London After Midnight (1927, poucos fragmentos do filme restaram). Sua versatilidade  na confecção de variadas máscaras lhe fez ser conhecido como “O Homem das Mil Faces”. Infelizmente o destino interrompeu o brilhantismo de Chaney, levando-o aos 47 anos e gerando uma comoção poucas vezes vistas até então no meio artístico americano. O homem das mil faces deixou de existir, mas seu legado sem dúvidas será eterno.


Bela Lugosi (Bela Ferenc Deszõ Blaskó)

 


 

Provavelmente foi o ator mais conhecido desta leva. Os motivos desta fama podem ser variados: a sua caracterização de Drácula que virou pop art,  seu fim de carreira trágico, sua memorável atuação como vampiro, etc. O que importa é que sua figura e seu nome se tornaram conhecidos dos fãs de horror e muitos destes por sua causa foram apresentados aos filmes clássicos do gênero e sua importância para a continuação do filão foi grande. Digo isto porque caso Drácula de 1931 não tivesse dado certo, provavelmente a inserção do gênero no cinema americano iria ser mais difícil. Além disso, se hoje os vampiros são caracterizados como seres sedutores, galantes e tétricos devemos isto á caracterização de Lugosi, que se opunha ao Drácula monstruoso e repulsivo de Bram Stoker.

Lugosi nasceu em 20 de outubro de 1882, na cidade de Lugoj, no então Império Austro-Hungáro. Vindo de uma família pobre, começou a atuar em uma companhia teatral ainda na adolescência. Sua situação no período da Primeira Guerra Mundial é mais um dos mistérios em sua vida: fontes asseguram que ele chegou ao posto de tenente de infantaria e saiu do serviço por ter sido ferido três vezes em combate: outros dizem que nem chegou a servir após se passar por louco. O que houve de fato após a guerra foi sua expulsão do país por causa de suas opiniões políticas, buscando exílio na Alemanha. Passou pouco tempo neste país, indo viver numa comunidade húngaro-americana nos Estados Unidos.

 

 

 

Lugosi como Drácula.

 

 

 

 

Após chegar na América, o ator participou da companhia teatral da comunidade húngaro-americana e chamou a atenção de John Balderston, que estava produzindo uma adaptação teatral do livro Drácula, de Bram Stoker. A sua fama então estava trilhada. Sua fala pesada (aliada ao fato de o mesmo ainda não estar tão familiarizado ao inglês), seus movimentos fortes e sua face espectral o fizeram assustar multidões, e quando a Universal adaptou o livro para o cinema em 1931, foi uma escolha ideal (apesar de ele ter sido contratado por outros fatores, principalmente econômicos, após as principais escolhas para o papel se tornarem inviáveis e Lugosi aceitar um pagamento baixo). O filme foi um sucesso e Lugosi atuou em vários outros filmes de horror para a companhia, como Os Assassinatos na Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue, 1932), O Gato Preto (The Black Cat, 1934), O Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939), dentre outros. Sua imagem se tornou conhecida e sua carreira decolou bastante na década de 30.

Porém, após o declínio do gênero nos anos 40, Lugosi encontrou grandes dificuldades para conseguir papéis. Como fator agravante, Lugosi foi mais um dos atores que ficou coma alcunha de “ator de um papel só”: após Drácula, os estúdios sempre o associavam ao vampiro, e isto prejudicou Lugosi em obter papéis diferentes. Na década de 40 Lugosi atuou em diversas produções de baixo orçamento, e muitas vezes repetindo seu papel de vampiro. A coisa só piorou nos anos 50 e o ator, já consumido pelo vício da morfina, aparecia em cineclubes para apresentar exibições de seus antigos filmes de horror para conseguir algum dinheiro. Então, o “infame” diretor Ed Wood resgatou o vampirão do ostracismo e lhe deu papéis em suas produções (na verdade uma tentativa de chamar a atenção para seus filmes Z) e financiou seu tratamento contra a dependência.

A parceria gerou pérolas do trash e teve como capítulo final o cult Plan 9 from Outer Space (na verdade Lugosi não atuou no filme, as cenas foram gravações aleatórias colocadas no filme por Wood). Lugosi faleceu no dia 16 de agosto de 1956. Foi sepultado com o traje de Drácula por vontade de seu filho e sua ex-esposa (ao contrário do que dizem que isto teria sido idéia do próprio Lugosi). Muitos dizem que Lugosi era mau ator. Na verdade não teve oportunidades de explorar seu potencial. Fez atuações excelentes, como o sarcástico Ygor de Son of Frankenstein e Ghost of Frankenstein, o comissário Razinin de Ninotchka e o sinistro Dr. Vitus Werdegast de The Black Cat. A grande infelicidade foi  sua vida ter declinado junto com o gênero que ajudou a moldar, o fazendo ser esquecido pelos grandes estúdios. Hoje em dia, temos a certeza de que Lugosi foi importante não só para o horror, mas como para o cinema em geral e que seu nome estará presente para sempre em qualquer lista dos maiores ícones do cinema fantástico.

 

 

 

Boris Karloff (William Henry Pratt)

 


 

 

Karloff foi outro gigante do cinema e seu principal papel também ficou imortalizado no cinema. Se hoje em dia vemos aquela caracterização do monstro de Frankenstein típica até em desenhos, isso se deve à imagem do monstro por Karloff na década de 30. Além de sua versatilidade como o Monstro de Frankenstein e a Múmia, o seu jeito gentleman garantiu-lhe diversas oportunidades fora do cinema de horror, o tornando um ator bastante versátil.

Karloff nasceu no dia 23 de novembro de 1887, na cidade de Londres, na Inglaterra. Foi criado em uma família de boas condições e teve uma boa educação. Em 1909 descobriu a capacidade de atuar e em 1910 emigrou para o Canadá. Lá atuou em diversos filmes mudos e companhias teatrais, até conseguir papéis de maior expressão nos Estados Unidos, como nos filmes The Devil´s Chaplain (1929) e Graft (1931). Porém, seu alcance ao estrelato foi de certa forma por acaso: o diretor James Whale estava no restaurante do estúdio discutindo com um membro da produção de Frankenstein sobre qual ator faria o papel do monstro (há fontes que afirmam que esta conversa ocorreu após a recusa de Bela Lugosi para fazer o papel do monstro, mas isto nunca ficou muito claro), quando o diretor viu Karloff sentado a uma mesa perto. Ao ver a estrutura facial de Karloff, aliada a sua estatura, Whale o convidou para dar vida ao monstro. Este aceitou e fez a maior escolha de sua vida, alcançando a fama após ter participado de mais de 100 filmes.

 

 

 

Karloff no papel que lhe deu fama, em Frankenstein (1931).

 

 

 

 

Frankenstein de 1931 foi um grande sucesso, aproveitando o sucesso da produção anterior, Drácula, e lançou Karloff ao estrelato. A atuação de Karloff foi espetacular, dando ao personagem toda a dramaticidade e mistério que a criatura possuía. Diferente do que aconteceu com Lugosi, Karloff não ficou estereotipado pela imagem do monstro e atuou em dezenas de obras, nos mais variados tipos de papel e filmes. Porém, como era de se esperar, assumiu mais uma vez a imagem do monstro no clássico absoluto A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935) e Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939), além de aparecer como o cientista louco de A Casa de Frankenstein (House of Frankenstein, 1945).

O ator também foi afetado pelo declínio do gênero na década de 40 e os papéis em filmes de horror rarearam, tendo assim atuado em alguns filmes de mistério e até comédia. Com o ressurgimento do filão do horror no meio da década de 50 o ator voltou a interpretar personagens bizarros e mais uma vez nos brindou com clássicos absolutos como Black Sabbath (I Tre Volti de la Paura, 1963), O Corvo (The Raven, 1963) e Farsa Trágica (Comedy of Terrors, 1964). Sua saúde então começou a ficar debilitada, mas mesmo assim Karloff não desistiu de atuar. Em seus últimos filmes chegou a gravar de cadeira de rodas e com aparência totalmente debilitada. O grande ator faleceu no dia 2 de fevereiro de 1969, aos 81 anos de idade. Seus últimos filmes foram lançados até o ano de 1971. Não só o horror ficou órfão, como também o cinema em geral perdeu um de seus maiores atores.

 

 

 

Lon Chaney Jr. (Creighton Tull Chaney)

 

 

 


É de fato curioso que um dos maiores atores do cinema mudo, Lon Chaney, não desejasse a carreira de ator para seu filho. Realmente naquela época era uma carreira que não dava muito retorno, tendo inclusive o próprio Chaney passado por maus bocados devido à falta de grana. Porém, mesmo assim surpreende pelo fato de Chaney ter sido um verdadeiro apaixonado pelo que fazia, negar a “magia da tela e dos palcos” ao seu progênito. Mas com o desenrolar do destino o grande Chaney infelizmente faleceu cedo e seu filho se viu livre para investir na carreira cinematográfica.

Lon Chaney Jr. nasceu em 10 de fevereiro de 1906, em Oklahoma City, Estados Unidos. Desde pequeno já enfrentou grandes dificuldades na vida, tendo sido enviado para uma instituição para órfãos aos 8 anos após sua mãe tentar suicídio, devido à conturbada vida com Lon Chaney Sr.. Retornou ao convívio com o pai em 1915 quando este se casou novamente e pode comprar uma casa. Creighton desempenhou diversas funções na vida, apesar de sempre pensar em ser ator. Como seu pai desaprovava a idéia, Creighton começou a atuar apenas em 1931, após a morte de seu pai.

 

 

 

 

A década de 30 foi um período praticamente sem destaque para o ator, fazendo pequenas aparições em filmes. Porém, em 1939, e agora assinando como Lon Chaney Jr., o ator teve uma grande oportunidade e soube aproveitar-la, no filme Sobre Ratos e Homens (Of Mice and Man, 1939). Com o sucesso da obra, Chaney obteve um contrato com a Universal e em 1941 estrelou o clássico que o tornaria famoso: O Lobisomem (The Wolfman). Chaney Jr. deu vida a Larry Talbot, que ao mesmo tempo associava uma grande carga dramática e a selvageria de um monstro. O filme foi um enorme sucesso e abriu o caminho para Chaney Jr. estrelar diversas películas, dentre elas O Fantasma de Frankenstein (The Ghost of Frankenstein, 1942), O Túmulo da Múmia (The Mummy´s Tomb, 1942), A Casa de Frankenstein (House of Frakenstein, 1944), dentre outros. Um fato muito curioso é que Chaney Jr. foi o único ator a interpretar todos os monstros sagrados da Universal.

 

 

 

Chaney no clássico O Lobisomem (1941).

 

 

Assim como Karloff e Lugosi, Chaney Jr. encontrou dificuldades a partir da metade da década de 40, no declínio do gênero. Além disso, se afundou cada vez mais no alcoolismo e teve diversas crises de depressão, tendo inclusive tentado suicídio nos sets de filmagens de Abbott and Costello meets Frankenstein. Na década de 50, voltou a ser chamado para produções do gênero, além de ter atuado em vários filmes e séries western. Porém nunca mais alcançou a fama que teve, ao contrário de Karloff.

Faleceu em 12 de julho de 1973, aos 67 anos, sofrendo um ataque cardíaco. Longe de sua vida pessoal, cheia de problemas, o ator nos deixou para a eternidade personagens desenvolvidos, cenas clássicas e o toque magistral dos Chaney na sétima arte. Foi o último grande ator especializado em terror da primeira leva de filmes do gênero.

———————————————-

 

 

P.S: Talvez você possa me questionar por ter retratado apenas estes atores, quando diversos outros astros atuaram em grande escala nas produções do gênero, como Claude Rains, Basil Rathbone, Lionel Atwill, John Carradine, dentre outros. Obviamente também devem ser enquadrados nesta categoria os excelentes Conrad Veidt, Max Schreck, Emil Jennings dentre outros que contribuíram no Expressionismo Alemão, origem do cinema de horror. Eles também tiveram uma enorme importância, mas eu acredito que por estes terem tido uma atividade maior em outros gêneros, além de não terem tido mais da metade de papéis na vida dentro do gênero, se enquadrariam em uma outra categoria, não a de primeiros atores sagrados do horror. Prometo que em breve farei um artigo sobre estes outros importantes elementos do cinema de horror.


Alice no País das Maravilhas (2010) – Um tropeço no meio do caminho

Um dos filmes mais esperados desse ano, Alice arrebentou nas bilheterias de todo o mundo. O diretor desta obra foi o conhecido e experimental Tim Burton, realizador de clássicos como Edward Mãos de Tesoura. Sua maior característica é sua excentricidade com os filmes, sempre enchendo as obras de temas e referências um tanto curiosas. Em Alice, uma história um tanto imaginativa e repleta de personagens únicos, isso seria um balde cheio para um cara como Burton. Daí eu pergunto por que o resultado final foi de certa forma “abaixo do esperado”.

Alerto que Alice é um filme com alguns bons momentos. Tem momentos bastante divertidos e é uma interessante experiência assisti-lo em 3D. O problema é que a sensação que temos é de que Burton juntou 2 média metragens: o filme se perde demais após sua metade. Bom, vamos por partes: em primeiro lugar, a Disney entregou o projeto para Burton com alguma coisa já realizada. Este então finalizou o que a Disney já havia esboçado. Talvez o motivo para uma obra de certa forma inconstante.

O roteiro conta a história de Alice (Mia Wasikowska) já adolescente, com 17 anos. Pois bem, ela está prestes a ter sua mão pedida em casamento por um burguesinho chato, em uma festa em que seus familiares estão presentes. Ela está confusa por isso, além de ter sonhos com o “país das maravilhas” todos os dias, desde a infância. Confusa, ela sai da festa e segue o Coelho Branco até uma arvóre, onde ela cai em um buraco e vai parar no mundo fantasioso. Lá, ela encontra com as criaturas do mundo de fantasia e descobre que o coelho a atraiu para salva-los da Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter).  Ela é apresentada ao Chapeleiro Maluco (Johnny Depp), Chesire (dublado por Stephen Fry) e outros personagens e então sabendo por que está ali começa a fugir dos soldados da Rainha Vermelha que a perseguem. O que acontece de fato é que ela já esteve lá com 7 anos, porém não se lembrava.

Pois bem, apesar do belo visual e um bom cast, o que temos aqui é incrivelmente inconstante. Burton seguiu bem a idéia da história de Alice nos primeiros 30 minutos, mostrando sua interação com as criaturas que vivem em Wonderland, sua ousadia, sua desconfiança e alguns diálogos engraçados. Porém, após isso o que temos é uma série de perseguições, personagens que deveriam ser engraçados não sendo, mais perseguições, efeitos esplendorosos, perseguições, etc. Além disso, agora Alice está lá para vestir uma armadura (!), empunhar uma espada sagrada (!!!!!!) e matar um dragão gigante (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!), para salvar seus amigos e acabar com o reinado da Rainha Vermelha.

Sinceramente foi um susto ver o Chapeleiro Maluco não maluco, e sim quase “romântico” neste filme. Também não entendi absolutamente como Anne Hathaway deixou a Rainha Branca um verdadeiro saco. Deu vontade de ver a Rainha Vermelha dando “um sacode” nela, heheheh. Além de os outros personagens clássicos (com exceção de Chesire) terem tido pouco espaço e Tim Burton ter deixado de lado suas clássicas características. Sinceramente nunca fui fã de Alice, mas consegui identificar tais diferenças berrantes mesmo assim. Então gostaria que você, se for fã, deixasse aqui também coisas inevitáveis que foram deixadas de lado. Sobre a produção, deixo registrado que é impecável, com belos efeitos e um som de primeira.

Mesmo não sendo um filme ruim, é meio assombroso ver que Tim Burton, pegando uma história que originalmente já era bizarra e cheia de simbolismos, tenha tomado um direcionamento tão estranho. Pois, quem assumiu a cadeira foi o mesmo que criou o estranho e agradável A Noiva Cadáver e o cult Edward Mãos de Tesoura. E aqui desperdiçou uma grande chance de retratar como só ele sabe um dos mais clássicos e curiosos contos infantis.

Nota: 6,0

– — — — — – –

País de Produção: Estado Unidos

Ano de Lançamento: 2010

Estúdio: Disney

— – – —  – – — –

Elenco:

Mia Wasikowska (Alice)

Johnny Depp (Chapeleiro Maluco)

Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha)

Anne Hathaway (Rainha Branca)

Crispin Glover (Stayne)

Michael Sheen (Coelho Branco)

Alan Rickman (Lagarta Azul)

Edição: Chris Lebenzon

Música: Danny Elfman

Cinematografia: Darius Wolski

Direção de Arte: Tim Browning

Produção: Joe Roth, Suzanne Todd e Richard D. Zanuck

Roteiro: Linda Woolverton, baseado na história de Lewis Carroll

Direção: Tim Burton

——– – – –

Trailer Original