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Luzes na Escuridão (Laitakaupungin valot – 2006) – Um intenso mergulho introspectivo


Algumas obras são incompreendidas por determinados fatores. Pude acompanhar a exibição desta obra num evento realizado aqui no Rio de Janeiro, a “Maratona Odeon”, que acontece toda primeira sexta feira do mês. Pois bem, este filme foi exibido após o muito mal aproveitado “A Ressaca”, que ao contrário de minha opinião (que obviamente não é soberana) arrancou gargalhadas do público durante quase toda sua projeção. Acredito que por isso Luzes na Escuridão tenha sido tal mal compreendido, motivo de piada e tão odiado pelos presentes na ocasião.

Este filme completa uma trilogia do diretor Aki Kaurismäki , que conta com os filmes Nuvens Passageiras e Um Homem sem Passado. [Atenção: SPOILERS no restante deste parágrafo] Koistinen (Janne Hyytiäinen) é um vigilante de um shopping em Helsinki. Sua vida é monótona, se resumindo ao seu emprego, sua ida de volta para casa (onde costuma parar num trailer para fazer um lanche) e ir para um bar, beberalguma dose que seja. Porém, enquanto toma café em um restaurante, uma mulher se aproxima do vigilante (Mirja – Maria Järvenhelmi) e tenta uma aproximação com ele, que obviamente cai na sedução da mulher. Após uma saída e outra, Kostinen deixa que ela o acompanhe durante seu turno de trabalho, o que ele nem imagina que seja uma armadilha. Após colocar sonífero no café do vigilante, a mulher pega suas chaves e abre a joalheria do shopping. O objeto do furto vai para as mãos de uma organização criminosa para a qual a loira trabalha.E como você já pode esperar, Kostinen perde seu emprego, é incriminado, vai preso e após aparentar dar mais uma chance para a mulher, é preso novamente e até mesmo tenta se vingar dos vilões.Devo avisar que este não é um filme fácil de assistir: é extremamente arrastado, ospassos dos personagens parecem ser previamente contados, além de sua estrutura ser um tanto inconvencional.

Eu diria que esse filme parece uma leitura moderna e finlandesa deEdgar Allan Poe: a figura de Koistinen é pesada, deprimida, desolada. O personagem é a personificação da perda da esperança, demonstrando um sentimento diferente da desolação poucas vezes no filme, e em momentos um tanto subjetivos. Sua única esperança para o futuro é posta água abaixo,  sem chances de recuperação.  Mas não é apenas o pobre protagonista que tem essa característica: os outros personagens (até mesmo a vilã loira) parecem ter saído das obras de Poe, pessoas sem esperança, que parecem estar apenas esperando a morte chegar. O diretor soube trabalhar esta atmosfera muito bem. O filme tem momentos que nas mãos de outros diretores provavelmente soariam um tanto exagerados, mas aqui se mostram envolventes.Este filme é um grande exemplar da linha mais “soturna” do cinema europeu. A narrativa da história é muito bem trabalhada, em conjunto com a já característica atmosfera melancólica de um país com inverno predominante. É sem dúvida um daqueles filmes quenão servem para serem vistos junto de um grupo de amigos, pois o seu maior mérito é convidar o espectador à reflexão de sentimentos intensos e testemunhar uma narrativa incomum da vida cotidiana.

Minha opinião é que o fato de o filme ter sido vaiado na “Maratona Odeon” foi justamente por não se encaixar na proposta do evento, já que o mesmo não favorecia (por motivos óbvios) uma introspecção do espectador, ainda mais após um filme de comédia, que acabou gerando o curioso paradoxo entre um filme que retratava o cômico e o escatológico e um outro filme que retrata a vida de forma sombria e sem esperança.

Nota: 8,5
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País: Finlândia
Ano de Produção: 2006
Estúdio: Sputnik
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Elenco:

Janne Hyytiäinen – Koistinen

Maria Järvenhelmi – Mirja

Maria Heiskanen – Aila

Ilkka Koivula – Lindholm

Sergei Doudko – Russian

Música: Melrose

Fotografia: Timo Salminen

Edição, Produção, Roteiro e Direção: Aki Kaurismäki

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Trailer



Os primeiros lordes do horror

Muito antes de “Jasons”, “Freddys” e similares aparecerem no cinema, a tela prateada contou com a presença de criaturas fantásticas em histórias envoltas em mistérios, com aquele clima denso e arrastado que marcou o início do cinema de horror. Porém, ao contrário dos referidos monstros modernos, que são vividos por variados atores (com a exceção de Freddy Krueger, que foi interpretado em 8 filmes por Robert Englund), aquelas criaturas do cinema em preto e branco ganhavam vida através de um pequeno grupo de atores que trilharam sua carreira no cinema de horror. Irei apresentar-lhes os principais atores que, digamos, eram “especializados em terror”, da primeira época do cinema de horror, ou caso vocês prefiram, “A Era de Ouro da Universal”. O intuito deste artigo é apenas contar um pouco da vida destes gigantes da tela, futuramente apresentarei um artigo especial para cada um deles.

 

 

Lon Chaney (Leonidas Frank Chaney)

 

 


De fato Lon Chaney não atuou exatamente em filmes de horror na maior parte da vida. Suas atuações eram de personagens enigmáticos e muitas vezes tétricos, o que ajudou a trilhar o que um dia viria a ser o filme de horror. Apenas na metade da década de 20 estrelou filmes do gênero. Infelizmente são poucas as obras, já que o grande ator faleceu em 1931, vitimado por um câncer.

Chaney nasceu em 1 de abril de 1883, no Colorado, Estados Unidos. Seus pais eram surdo-mudos e ele foi criado em um ambiente circense. Devido a isto, desenvolveu uma grande habilidade em comunicação visual e no circo aprendeu a criar a própria maquiagem, se tornando um prolífico ator no teatro. Após um casamento conturbado com Cleva Creighton (que gerou seu único filho, Creighton Chaney), Chaney começou a se firmar no cinema e finalmente obter um grande reconhecimento.

Suas interpretações de loucos, deficientes e seres mórbidos o transformaram na melhor escolha para filmes de horror. Então, no ano de 1923, Chaney apavorou o público no clássico O Corcunda de Notre Dame (The Hunchback of Notre Dame). A maquiagem impecável, seu jeito desengonçado e levemente débil levaram o nome de Chaney às alturas e lhe garantiram um outro papel de destaque no gênero, a retratação de Eric em O Fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera, 1925). Mais uma vez o ator assustava o público com uma maquiagem bizarra em uma história envolta de mistérios e mortes.

 

 

 

Chaney em O Fantasma da Ópera (1925)

 

 

 

 

A carreira cinematográfica de Chaney foi muito rica, com filmes clássicos como The Unholy Three (1925 e o remake sonoro de 1930, único filme falado de Chaney), He Who Gets Sllaped (1923) e London After Midnight (1927, poucos fragmentos do filme restaram). Sua versatilidade  na confecção de variadas máscaras lhe fez ser conhecido como “O Homem das Mil Faces”. Infelizmente o destino interrompeu o brilhantismo de Chaney, levando-o aos 47 anos e gerando uma comoção poucas vezes vistas até então no meio artístico americano. O homem das mil faces deixou de existir, mas seu legado sem dúvidas será eterno.


Bela Lugosi (Bela Ferenc Deszõ Blaskó)

 


 

Provavelmente foi o ator mais conhecido desta leva. Os motivos desta fama podem ser variados: a sua caracterização de Drácula que virou pop art,  seu fim de carreira trágico, sua memorável atuação como vampiro, etc. O que importa é que sua figura e seu nome se tornaram conhecidos dos fãs de horror e muitos destes por sua causa foram apresentados aos filmes clássicos do gênero e sua importância para a continuação do filão foi grande. Digo isto porque caso Drácula de 1931 não tivesse dado certo, provavelmente a inserção do gênero no cinema americano iria ser mais difícil. Além disso, se hoje os vampiros são caracterizados como seres sedutores, galantes e tétricos devemos isto á caracterização de Lugosi, que se opunha ao Drácula monstruoso e repulsivo de Bram Stoker.

Lugosi nasceu em 20 de outubro de 1882, na cidade de Lugoj, no então Império Austro-Hungáro. Vindo de uma família pobre, começou a atuar em uma companhia teatral ainda na adolescência. Sua situação no período da Primeira Guerra Mundial é mais um dos mistérios em sua vida: fontes asseguram que ele chegou ao posto de tenente de infantaria e saiu do serviço por ter sido ferido três vezes em combate: outros dizem que nem chegou a servir após se passar por louco. O que houve de fato após a guerra foi sua expulsão do país por causa de suas opiniões políticas, buscando exílio na Alemanha. Passou pouco tempo neste país, indo viver numa comunidade húngaro-americana nos Estados Unidos.

 

 

 

Lugosi como Drácula.

 

 

 

 

Após chegar na América, o ator participou da companhia teatral da comunidade húngaro-americana e chamou a atenção de John Balderston, que estava produzindo uma adaptação teatral do livro Drácula, de Bram Stoker. A sua fama então estava trilhada. Sua fala pesada (aliada ao fato de o mesmo ainda não estar tão familiarizado ao inglês), seus movimentos fortes e sua face espectral o fizeram assustar multidões, e quando a Universal adaptou o livro para o cinema em 1931, foi uma escolha ideal (apesar de ele ter sido contratado por outros fatores, principalmente econômicos, após as principais escolhas para o papel se tornarem inviáveis e Lugosi aceitar um pagamento baixo). O filme foi um sucesso e Lugosi atuou em vários outros filmes de horror para a companhia, como Os Assassinatos na Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue, 1932), O Gato Preto (The Black Cat, 1934), O Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939), dentre outros. Sua imagem se tornou conhecida e sua carreira decolou bastante na década de 30.

Porém, após o declínio do gênero nos anos 40, Lugosi encontrou grandes dificuldades para conseguir papéis. Como fator agravante, Lugosi foi mais um dos atores que ficou coma alcunha de “ator de um papel só”: após Drácula, os estúdios sempre o associavam ao vampiro, e isto prejudicou Lugosi em obter papéis diferentes. Na década de 40 Lugosi atuou em diversas produções de baixo orçamento, e muitas vezes repetindo seu papel de vampiro. A coisa só piorou nos anos 50 e o ator, já consumido pelo vício da morfina, aparecia em cineclubes para apresentar exibições de seus antigos filmes de horror para conseguir algum dinheiro. Então, o “infame” diretor Ed Wood resgatou o vampirão do ostracismo e lhe deu papéis em suas produções (na verdade uma tentativa de chamar a atenção para seus filmes Z) e financiou seu tratamento contra a dependência.

A parceria gerou pérolas do trash e teve como capítulo final o cult Plan 9 from Outer Space (na verdade Lugosi não atuou no filme, as cenas foram gravações aleatórias colocadas no filme por Wood). Lugosi faleceu no dia 16 de agosto de 1956. Foi sepultado com o traje de Drácula por vontade de seu filho e sua ex-esposa (ao contrário do que dizem que isto teria sido idéia do próprio Lugosi). Muitos dizem que Lugosi era mau ator. Na verdade não teve oportunidades de explorar seu potencial. Fez atuações excelentes, como o sarcástico Ygor de Son of Frankenstein e Ghost of Frankenstein, o comissário Razinin de Ninotchka e o sinistro Dr. Vitus Werdegast de The Black Cat. A grande infelicidade foi  sua vida ter declinado junto com o gênero que ajudou a moldar, o fazendo ser esquecido pelos grandes estúdios. Hoje em dia, temos a certeza de que Lugosi foi importante não só para o horror, mas como para o cinema em geral e que seu nome estará presente para sempre em qualquer lista dos maiores ícones do cinema fantástico.

 

 

 

Boris Karloff (William Henry Pratt)

 


 

 

Karloff foi outro gigante do cinema e seu principal papel também ficou imortalizado no cinema. Se hoje em dia vemos aquela caracterização do monstro de Frankenstein típica até em desenhos, isso se deve à imagem do monstro por Karloff na década de 30. Além de sua versatilidade como o Monstro de Frankenstein e a Múmia, o seu jeito gentleman garantiu-lhe diversas oportunidades fora do cinema de horror, o tornando um ator bastante versátil.

Karloff nasceu no dia 23 de novembro de 1887, na cidade de Londres, na Inglaterra. Foi criado em uma família de boas condições e teve uma boa educação. Em 1909 descobriu a capacidade de atuar e em 1910 emigrou para o Canadá. Lá atuou em diversos filmes mudos e companhias teatrais, até conseguir papéis de maior expressão nos Estados Unidos, como nos filmes The Devil´s Chaplain (1929) e Graft (1931). Porém, seu alcance ao estrelato foi de certa forma por acaso: o diretor James Whale estava no restaurante do estúdio discutindo com um membro da produção de Frankenstein sobre qual ator faria o papel do monstro (há fontes que afirmam que esta conversa ocorreu após a recusa de Bela Lugosi para fazer o papel do monstro, mas isto nunca ficou muito claro), quando o diretor viu Karloff sentado a uma mesa perto. Ao ver a estrutura facial de Karloff, aliada a sua estatura, Whale o convidou para dar vida ao monstro. Este aceitou e fez a maior escolha de sua vida, alcançando a fama após ter participado de mais de 100 filmes.

 

 

 

Karloff no papel que lhe deu fama, em Frankenstein (1931).

 

 

 

 

Frankenstein de 1931 foi um grande sucesso, aproveitando o sucesso da produção anterior, Drácula, e lançou Karloff ao estrelato. A atuação de Karloff foi espetacular, dando ao personagem toda a dramaticidade e mistério que a criatura possuía. Diferente do que aconteceu com Lugosi, Karloff não ficou estereotipado pela imagem do monstro e atuou em dezenas de obras, nos mais variados tipos de papel e filmes. Porém, como era de se esperar, assumiu mais uma vez a imagem do monstro no clássico absoluto A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935) e Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939), além de aparecer como o cientista louco de A Casa de Frankenstein (House of Frankenstein, 1945).

O ator também foi afetado pelo declínio do gênero na década de 40 e os papéis em filmes de horror rarearam, tendo assim atuado em alguns filmes de mistério e até comédia. Com o ressurgimento do filão do horror no meio da década de 50 o ator voltou a interpretar personagens bizarros e mais uma vez nos brindou com clássicos absolutos como Black Sabbath (I Tre Volti de la Paura, 1963), O Corvo (The Raven, 1963) e Farsa Trágica (Comedy of Terrors, 1964). Sua saúde então começou a ficar debilitada, mas mesmo assim Karloff não desistiu de atuar. Em seus últimos filmes chegou a gravar de cadeira de rodas e com aparência totalmente debilitada. O grande ator faleceu no dia 2 de fevereiro de 1969, aos 81 anos de idade. Seus últimos filmes foram lançados até o ano de 1971. Não só o horror ficou órfão, como também o cinema em geral perdeu um de seus maiores atores.

 

 

 

Lon Chaney Jr. (Creighton Tull Chaney)

 

 

 


É de fato curioso que um dos maiores atores do cinema mudo, Lon Chaney, não desejasse a carreira de ator para seu filho. Realmente naquela época era uma carreira que não dava muito retorno, tendo inclusive o próprio Chaney passado por maus bocados devido à falta de grana. Porém, mesmo assim surpreende pelo fato de Chaney ter sido um verdadeiro apaixonado pelo que fazia, negar a “magia da tela e dos palcos” ao seu progênito. Mas com o desenrolar do destino o grande Chaney infelizmente faleceu cedo e seu filho se viu livre para investir na carreira cinematográfica.

Lon Chaney Jr. nasceu em 10 de fevereiro de 1906, em Oklahoma City, Estados Unidos. Desde pequeno já enfrentou grandes dificuldades na vida, tendo sido enviado para uma instituição para órfãos aos 8 anos após sua mãe tentar suicídio, devido à conturbada vida com Lon Chaney Sr.. Retornou ao convívio com o pai em 1915 quando este se casou novamente e pode comprar uma casa. Creighton desempenhou diversas funções na vida, apesar de sempre pensar em ser ator. Como seu pai desaprovava a idéia, Creighton começou a atuar apenas em 1931, após a morte de seu pai.

 

 

 

 

A década de 30 foi um período praticamente sem destaque para o ator, fazendo pequenas aparições em filmes. Porém, em 1939, e agora assinando como Lon Chaney Jr., o ator teve uma grande oportunidade e soube aproveitar-la, no filme Sobre Ratos e Homens (Of Mice and Man, 1939). Com o sucesso da obra, Chaney obteve um contrato com a Universal e em 1941 estrelou o clássico que o tornaria famoso: O Lobisomem (The Wolfman). Chaney Jr. deu vida a Larry Talbot, que ao mesmo tempo associava uma grande carga dramática e a selvageria de um monstro. O filme foi um enorme sucesso e abriu o caminho para Chaney Jr. estrelar diversas películas, dentre elas O Fantasma de Frankenstein (The Ghost of Frankenstein, 1942), O Túmulo da Múmia (The Mummy´s Tomb, 1942), A Casa de Frankenstein (House of Frakenstein, 1944), dentre outros. Um fato muito curioso é que Chaney Jr. foi o único ator a interpretar todos os monstros sagrados da Universal.

 

 

 

Chaney no clássico O Lobisomem (1941).

 

 

Assim como Karloff e Lugosi, Chaney Jr. encontrou dificuldades a partir da metade da década de 40, no declínio do gênero. Além disso, se afundou cada vez mais no alcoolismo e teve diversas crises de depressão, tendo inclusive tentado suicídio nos sets de filmagens de Abbott and Costello meets Frankenstein. Na década de 50, voltou a ser chamado para produções do gênero, além de ter atuado em vários filmes e séries western. Porém nunca mais alcançou a fama que teve, ao contrário de Karloff.

Faleceu em 12 de julho de 1973, aos 67 anos, sofrendo um ataque cardíaco. Longe de sua vida pessoal, cheia de problemas, o ator nos deixou para a eternidade personagens desenvolvidos, cenas clássicas e o toque magistral dos Chaney na sétima arte. Foi o último grande ator especializado em terror da primeira leva de filmes do gênero.

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P.S: Talvez você possa me questionar por ter retratado apenas estes atores, quando diversos outros astros atuaram em grande escala nas produções do gênero, como Claude Rains, Basil Rathbone, Lionel Atwill, John Carradine, dentre outros. Obviamente também devem ser enquadrados nesta categoria os excelentes Conrad Veidt, Max Schreck, Emil Jennings dentre outros que contribuíram no Expressionismo Alemão, origem do cinema de horror. Eles também tiveram uma enorme importância, mas eu acredito que por estes terem tido uma atividade maior em outros gêneros, além de não terem tido mais da metade de papéis na vida dentro do gênero, se enquadrariam em uma outra categoria, não a de primeiros atores sagrados do horror. Prometo que em breve farei um artigo sobre estes outros importantes elementos do cinema de horror.


Freaks (Monstros, 1932) – Um clássico do grotesco.

 

Pôster original.

 

 

Elenco reunido com o diretor Browning.

 

Dedico este post a um dos meus filmes preferidos. Se você perguntar porque este é um dos meus filmes preferidos, devo ser sincero em lhe dizer que não sei responder exatamente. Poderia dizer que seja pelo fato de a obra ter sido uma das mais, digamos, “amaldiçoadas” da história do cinema. Poderia também dizer que seja por sua ousadia surpreendente para a época (mesmo que os espetáculos envolvendo freaks fossem comuns). E obviamente posso citar também a outra ousadia que seria mostrar quem são os verdadeiros monstros: as pessoas “perfeitas”. Enfim, o que importa mesmo é que esta chocante produção do ano de 1932 é um absoluto clássico do cinema e merece ser visto por todos, independente de suas preferências.

O cineasta Tod Browning estava a todo vapor na época, graças aos sucessos de seus filmes anteriores, como London After Midnight (de 1927, com o grande Lon Chaney) e Drácula (de 1931, com Bela Lugosi). Então, este cineasta que estava acostumado a retratar o bizarro, resolve lançar este filme que é uma adaptação da história “Spurs”, de Tod Robbins. Obviamente o cinema de horror da época era muito “brando”. Talvez por isso as pessoas tenham sofrido um impacto tão grande ao assistir a esta obra. Curioso, pois como já falei, espetáculos que exploravam a deformidade dessas pessoas explodiam nos Estados Unidos. O que importa é sua importância histórica e seu valor de entretenimento, uma obra que foi banida em vários países ,foi massacrada pela crítica,sofreu inúmeros cortes e praticamente arruinou a carreira de Tod Browning.

Mesmo durante a sua produção, Browning foi muito criticado. Vários atores chamados por Browning recusaram papéis. Nos estúdios da MGM, a equipe do filme chegou a ser obrigada a almoçar fora dos estúdios, em tendas, pois vários profissionais da companhia não conseguiam comer perto dos “freaks” (a vida imitando a arte, não?). O filme teve sua exibição teste em 1931 e foi um desastre total. Frente a isto, o estúdio decidiu remover a maior parte das cenas com os “freaks”, alterou seu epílogo original e encurtou bastante as cenas finais. As partes que foram censuradas do filme infelizmente estão perdidas, e da película de 90 minutos sobraram apenas pouco mais de 60. Seu final original também foi alterado, sendo substituído por um final feliz, no intuito de amenizar o impacto da obra. Não adiantou. A critica considerou o filme “doentio”. Cinemas boicotaram a obra. No Reino Unido, o filme ficou proibido por mais de 30 anos. E o pobre Browning teve sua carreira futura bastante prejudicada, conseguindo dirigir apenas mais 4 filmes (o diretor tinha realizado desde a década de 10 57 obras). Felizmente o filme foi resgatado na década de 60 e finalmente pode receber o prestígio que merecia (graças ao público já ter sido submetido a maiores “horrores” nesta época).

[ATENÇÃO: Spoilers neste parágrafo]: O filme começa com um homem prestes a revelar, em uma caixa, um dos maiores “mistérios da natureza” (Vale ressaltar que este prólogo não estava presente na versão original do filme). Então somos apresentados a um circo, onde artistas “normais” se misturam às “aberrações”. Logo no início, numa cena onde Madame Tetrallini (Rose Dione) está com alguns dos freaks em um gramado já temos o impacto da obra em geral: vemos o “homem torso” Prince Radian, que não tem nenhum membro, Johnny Eck que aparentava não ter nada da cintura para baixo, além dos microencefálicos, dos quais destacamos Schilitzie (que, apesar de retratado como mulher, na verdade era um homem e provavelmente chamava-se Simon). Nesta cena, vemos dois homens abordando Madame Tetrallini, onde podemos já identificar a abordagem sobre o preconceito das pessoas aos deficientes. O filme segue e vemos então a trama principal: a trapezista Cleópatra (Olga Baclanova) observa que o anão Hans (Harry Earles) a observa com admiração, e ao descobrir que ele é herdeiro de uma fortuna, passa a seduzi-lo e ele, mesmo sabendo da diferença óbvia entre ambos, a pede em casamento. Só que Cleópatra na verdade tinha um caso com o trapezista Hércules (Henry Victor) e planejava matar Hans para herdar sua herança. Ao perceber as verdadeiras intenções de Cleópatra, a anã Frieda (Daisy Earles) tenta alertar seu ex-noivo Hans, que não lhe dá atenção. Então, esta passa apenas a contar com o apoio de Vênus (Leila Hyams) e Phroso (Wallace Ford), que também desconfiam dos verdadeiros objetivos de Cleópatra. Na festa de casamento, numa das cenas mais memoráveis do cinema, os freaks estão reunidos numa grande mesa e cantam para Cleópatra “Você é uma de nós!”. Esta, com repulsa por ser comparada a eles, os agride verbalmente e caçoa de Hans, além de beijar Hércules na frente de todos. Hans aparentemente a perdoa, porém no momento em que Cleópatra iria envenenar-lo, os freaks montam uma armadilha para ela e Hans revela que sabe de tudo. A vingança dos Freaks começa. No fim do filme é revelado o conteúdo da caixa: Cleópatra foi “transformada” numa freak.

Obviamente os maiores destaque são as cenas com os freaks. Temos a clássica cena do homem-torso acendendo o cigarro com a boca (no filme original,ele também enrolava o cigarro com a língua), Johnny Eck “andando com os braços”, a Vênus de Milo (Frances O’Connor) realizando afazeres com as pernas, Schilitzie tentando se comunicar com Phroso, o “homem esqueleto” (Peter Robinson) comemorando o nascimento de seu filho com a mulher barbada,e obviamente a cena do banquete de casamento. Pena que tantas outras cenas estejam perdidas… O filme enfatiza o preconceito que muitas pessoas tem com deficientes, mas mostra também o outro lado da moeda, na imagem de Vênus e Phroso que protegem os freaks.

O aspecto técnico do filme é bom, considerando as limitações que existiam na época em ambientar complexos ambientes externos em estúdio,neste caso um circo.Browning manteve uma boa direção e a interação entre os atores e “freaks” tornam o ambiente ainda mais convincente. O filme pode nos passar um daqueles dilemas ambíguos, entre o moral e o amoral que estava presente na época de sua produção: os “freaks” eram explorados como aberrações, e isso desrespeitava os direitos humanos. Porém, era a única forma de conseguirem dinheiro (e conseguiam uma razoável quantia), já que planos assistenciais naquela época mal garantiam uma digna existência. Com os shows, os “freaks” conseguiam uma vida confortável dentro de seus limites, se casavam e constituíam famílias. Somente na década de 60, quando tais espetáculos foram abolidos, houve uma preocupação social maior com essas pessoas. Bom, é um julgamento que considero intrínseco, depende do ponto de vista de cada pessoa, mas o fato é que graças àqueles shows os artistas não se tornavam confinados em asilos decadentes do início do século.

Este é um dos trabalhos mais espetaculares da história do cinema, sem sombra de dúvidas. Fico imaginando a reação da platéia na época ao ver a película (ainda mais nervosa pelo fato de o “Fantasma da Crise de 29” ainda estar presente em 1932), e a seguinte questão surge: teriam ficado chocados pelas imagens das pessoas com limitações ou horrorizados por verem como eles mesmos podiam ser tão preconceituosos? Tirem suas conclusões e se deleitem com um dos maiores espetáculos da história do cinema.

P.S: Em breve farei um post especial sobre os freaks presentes neste filme e a suposta “maldição do filme Freaks”.

Nota: 9,5

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Elenco:

Wallace Ford – Phroso

Leila Hyams – Venus

Olga Baclanova – Cleópatra

Henry Victor – Hércules

Harry Earles – Hans

Daisy Earles – Frieda

Johnny Eck – Half Boy

Roscoe Ates – Roscoe

Rose Dione – Madame Tetrallini

Frances O’Connor – Armless Wonder

Peter Robinson – Human Eskeleton

Roteiro: Willis Goldbeck e Elliot Clawson, baseado numa história de Tod Robbins

Edição: Basil Wrangwell

Produzido e Dirigido por: Tod Browning

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A clássica cena do banquete: