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À Espera de um Milagre (The Green Mile – 1999): Soberbo!

Olá meus caros! Como vão?? Primeiramente, informo que infelizmente estive impossibilitado de postar no blog, graças a contratempos (leia-se bloqueio da internet em meu trabalho). Mas agora estou com um acesso estável, e prometo que sempre postarei sobre antigos e novos clássicos do cinema aqui 🙂 ! E em segundo, vamos falar sobre um filme que, na minha opinião, é o melhor do cinema americano: À Espera de um Milagre.

Vamos começar falando do diretor desta obra de arte: Frank Darabont. Enquanto muitos apontam como “gênio do cinema moderno americano” diretores como M. Night Shyamalan, eu digo que quem merece este título é nosso querido Darabont. Sinceramente, eu até acho que ele é injustiçado, por não ter um renome tão grande como cineastas modernos, como Shyamalan e cia.. Sinceramente, ainda não vi filme deste homem sair abaixo do ótimo. Um Sonho de Liberdade, Cine Majestic… o inquietante O Nevoeiro…. um novo gênio da sétima arte. Mas permita-me falar do filme em questão no artigo, que é seu maior acerto, sem dúvidas.

[ATENÇÃO: Spoilers nos próximos 2 parágrafos] The Green Mile, como a maior parte dos filmes dirigidos por Darabont, é uma adaptação cinematográfica de uma obra de Stephen King, lançada em 1996. O filme começa com Paul Edgecomb, um antigo guarda de prisão, em um asilo, tendo uma crise emocional ao ver o filme Top Hat, com Fred Astaire. Então, ele começa a contar sua história para uma amiga de asilo. Somos levados então ao ano de 1935, onde Paul Edgecomb (retratado aqui por Tom Hanks) era chefe de guarda de um corredor da morte, apelidado pelos guardas de “A Milha Verde”. Ao chegar um novo prisioneiro, todos se impressionam com o mesmo: um homem negro (num tempo em que o racismo era ainda intenso) com mais de 2 metros de altura, de aparência forte, mas de uma mentalidade inocente e até mesmo infantil. O nome dele é John Coffee (Michael Clarke Duncan) e foi condenado à morte pelo assassinato de duas garotinhas. Mas conforme o filme decorre, John Coffee demonstra ser uma boa pessoa, e guarda um segredo: ele tem o dom de curar as pessoas. O próprio Edgecomb tem uma infecção urinária curada por Coffee. Após isso, Edgecomb passa a ter uma nova imagem do prisioneiro.

Mas o filme tem outros personagens tão ricos quanto: Eduard Delacroix (Michael Jeter), um prisioneiro profundamente arrependido do que fez e que “doma” um outro personagem muito especial (e que tem grande importância na trama), o ratinho Mr. Jingles; Percy Wetmore (Doug Hutchison), um guarda imbecil que chegou ao cargo através do conhecimento de pessoas importantes; Will Bill (Sam Rockwell), um assassino que chega após John Coffee no corredor da morte, e também guarda um segredo essencial na trama, além  dos guardas Brutal Howell (o ótimo David Morse), Dean Stanton (Barry Pepper) e Hal Moores (James Crowmwell), que também presencia os milagres de Coffe, após sua mulher ser curada de um câncer terminal pelas mãos do prisioneiro.

Aliás, a forma como o filme é conduzido faz o espectador interagir de forma única na história. Mesmo que Coffee seja de certa forma o ponto principal do filme, a narrativa dá espaço para os outros personagens se desenvolverem e ganharem o carisma (ou ódio) do espectador. E como é característico nas obras de King, os personagens refletem vários aspectos que compõe o ser humano como um todo. Enfim, é um dos filmes com personagens melhor construídos que eu já vi.

A parte técnica também é uma maravilha. A imagem cria um clima nostálgico, mas não deixa de ser límpida e viva. Até mesmo o contraste da Milha Verde com a falta de cores (e porque não de vida?) do cenário da prisão causa um grande impacto. O som é muito bem cuidado, enfatizando nas ações dos personagens, tornado o resultado quase teatral. As atuações são ótimas. Tom Hanks, na minha opinião, é o melhor ator das duas últimas décadas, e aqui mais uma vez tem um resultado muito bom (mesmo que um pouco contido). Michael Clarke Duncan impressiona e tem uma atuação assombrosa. Até hoje fico pensando na burrada que a “Academia de Imbecilidades de Hollywood” fez em não dar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2000 para Duncan… Também outro que brilha é Sam Rockwell que conseguiu tornar Wild Bill extremamente repulsivo, mas sarcasticamente engraçado.

Além disso, dois dos maiores pontos da trama são as surpresas do final. Reconheço que pode ser um pouco difícil para algumas pessoas se “entusiasmar” em ver um filme de drama com 3 horas de duração, mas eu recomendo: é uma ótima experiência. Se os filmes americanos da atualidade tivessem pelo menos a metade da qualidade de Green Mile, o cinema americano estaria muito longe de seu atual estado lastimável. Mas Frank Darabont mostrou que até mesmo numa industria cinematográfica onde as cifras ofuscam a arte é possível alcançar resultados magníficos. E sua competência nos presenteou com um dos mais belos e intensos filmes da história.

Nota: 10,0


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País: Estados Unidos

Estúdio: Castle Rock

Ano de Lançamento: 1999

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Elenco:

Tom Hanks (Paul Edgecomb)

Michael Clarke Duncan (John Coffee)

David Morse (Brutus Howell)

Bonnie Hunt (Jan Edgecomb)

Sam Rockwell (Wild Bill)

Michael Jeter (Eduard Delacroix)

James Cromwell (Hal Moores)

Doug Hutchison (Percy Wetmore)

Edição: Richard Francis-Bruce

Música: Thomas Newman

Direção de Fotografia: David Tattersall

Direção de Arte: William Cruse

Produção: Frank Darabont e David Valdes

Roteiro: Frank Darabont, escrito a partir da obra de Stephen King

Direção: Frank Darabont.

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Trailer Original


A Morte Cansada (Der Müde Tod, 1921) – O primeiro grande ato de Fritz Lang

Se houve um movimento extremamente simbólico e surrealista no cinema, este foi o Expressionismo Alemão. As obras originadas deste obscuro período do cinema alemão criaram elementos que perduram até hoje no cinema, além de ajudar a moldar o que hoje conhecemos como terror, suspense e de certa forma o noir. Infelizmente o gênero não foi muito duradouro, principalmente pelo fato de ter sido oprimido com a ascensão dos ideários nazistas já no final da década de 20. Dos envolvidos neste filão, vários foram expulsos ou fugiram da Alemanha, como o diretor Fritz Lang, que neste filme já mostrava elementos que perduraram em suas obras mais clássicas, como a trilogia do Dr. Mabuse e Os Ninbelungos.

A Morte Cansada foi a primeira incursão do diretor no Expressionismo Alemão. O filme conta a história de um casal (Lil Dagover, a Jane de O Gabinete do Dr. Caligari, e Walter Janssen) prestes a se casar. Ao pararem em uma taberna, encontram com um homem misterioso (o excelente Bernhard Goetzke), que na verdade é a Morte. Então, enquanto a jovem estava em um outro local da taberna, a Morte leva seu noivo e a jovem então se põe a buscar seu amado em vários pontos da cidade. Ao ver a alma de seu amado vagando, desmaia e é resgatada por um alquimista. Ao acordar, decide cometer suicídio e tentar buscar a alma de seu amado. Ao encontrar com a Morte, suplica para que tenha a vida de seu amado devolvida, e esta então lhe oferece três desafios: a jovem deve salvar 3 vidas (simbolizadas pelas chamas de 3 velas), em ambientes distintos. Na representação destas 3 histórias, ela vê as pessoas que devem ser salvas na imagem de seu noivo, mas não consegue salvar-las. Então, a Morte lhe dá mais uma chance, obrigando a jovem a oferecer a vida de alguém para ter a de seu noivo de volta.

A interpretação da Morte talvez seja a marca maior do filme: vemos aí não um ser demoníaco, mas sim uma criatura destinada a cumprir algo que é obrigada a fazer. Mesmo que durante as 3 histórias ela demonstre piedade e deseje ajudar os jovens, ela não pode deixar de cumprir seu dever, estando disfarçada nas 3 histórias passadas para cumprir seu objetivo. No fim das contas, a obra aborda as questões sobre o amor e a válvula de escape perante uma situação indesejada: o suicídio.

Enfim, A Morte Cansada na minha opinião é um dos melhores filmes do Expressionismo Alemão. Em primeiro lugar, é um dos que mais exemplifica as idéias essenciais do movimento. Em segundo lugar, por ser uma obra com uma estrutura narrativa tão rica e bem trabalhada. E em terceiro lugar por ser a apresentação do gênio Fritz Lang ao cinema e ser uma obra que definiu o padrão seguido por este diretor, seja em sua linha narrativa, seja em sua representação visual. Mesmo que você não goste de filmes mudos, dê uma chance a si mesmo para assistir uma obra tão cheia de qualidades. Mais do que um filme, A Morte Cansada é uma abordagem filosófica sobre a vida e suas conseqüências.

Nota: 9,0

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País de Produção: Alemanha

Ano: 1921

Estúdio: Decla Bioscope

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Elenco:

Lil Dagover (A Jovem)

Walter Janssen (O Jovem)

Bernhard Goetzke (A Morte)

Hans Sterneberg (O Prefeito)

Paul Rehkopth (O Coveiro)

Karl Rucket (O Reverendo)

Karl Platen (O Alquimista)

Direção de Arte: Robert Herlth, Walter Rohrig e Hermann Warm

Cinematografia: Bruno Mondi, Erich Nitschmann, Herrmann Saalfrank e Fritz Arno Wagner

Produção: Erich Pommer

Roteiro: Fritz Lang e Thea von Arbour

Direção: Fritz Lang

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Primeira parte do filme (siga os links no final do video para assistir as partes seguintes)


Os primeiros lordes do horror

Muito antes de “Jasons”, “Freddys” e similares aparecerem no cinema, a tela prateada contou com a presença de criaturas fantásticas em histórias envoltas em mistérios, com aquele clima denso e arrastado que marcou o início do cinema de horror. Porém, ao contrário dos referidos monstros modernos, que são vividos por variados atores (com a exceção de Freddy Krueger, que foi interpretado em 8 filmes por Robert Englund), aquelas criaturas do cinema em preto e branco ganhavam vida através de um pequeno grupo de atores que trilharam sua carreira no cinema de horror. Irei apresentar-lhes os principais atores que, digamos, eram “especializados em terror”, da primeira época do cinema de horror, ou caso vocês prefiram, “A Era de Ouro da Universal”. O intuito deste artigo é apenas contar um pouco da vida destes gigantes da tela, futuramente apresentarei um artigo especial para cada um deles.

 

 

Lon Chaney (Leonidas Frank Chaney)

 

 


De fato Lon Chaney não atuou exatamente em filmes de horror na maior parte da vida. Suas atuações eram de personagens enigmáticos e muitas vezes tétricos, o que ajudou a trilhar o que um dia viria a ser o filme de horror. Apenas na metade da década de 20 estrelou filmes do gênero. Infelizmente são poucas as obras, já que o grande ator faleceu em 1931, vitimado por um câncer.

Chaney nasceu em 1 de abril de 1883, no Colorado, Estados Unidos. Seus pais eram surdo-mudos e ele foi criado em um ambiente circense. Devido a isto, desenvolveu uma grande habilidade em comunicação visual e no circo aprendeu a criar a própria maquiagem, se tornando um prolífico ator no teatro. Após um casamento conturbado com Cleva Creighton (que gerou seu único filho, Creighton Chaney), Chaney começou a se firmar no cinema e finalmente obter um grande reconhecimento.

Suas interpretações de loucos, deficientes e seres mórbidos o transformaram na melhor escolha para filmes de horror. Então, no ano de 1923, Chaney apavorou o público no clássico O Corcunda de Notre Dame (The Hunchback of Notre Dame). A maquiagem impecável, seu jeito desengonçado e levemente débil levaram o nome de Chaney às alturas e lhe garantiram um outro papel de destaque no gênero, a retratação de Eric em O Fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera, 1925). Mais uma vez o ator assustava o público com uma maquiagem bizarra em uma história envolta de mistérios e mortes.

 

 

 

Chaney em O Fantasma da Ópera (1925)

 

 

 

 

A carreira cinematográfica de Chaney foi muito rica, com filmes clássicos como The Unholy Three (1925 e o remake sonoro de 1930, único filme falado de Chaney), He Who Gets Sllaped (1923) e London After Midnight (1927, poucos fragmentos do filme restaram). Sua versatilidade  na confecção de variadas máscaras lhe fez ser conhecido como “O Homem das Mil Faces”. Infelizmente o destino interrompeu o brilhantismo de Chaney, levando-o aos 47 anos e gerando uma comoção poucas vezes vistas até então no meio artístico americano. O homem das mil faces deixou de existir, mas seu legado sem dúvidas será eterno.


Bela Lugosi (Bela Ferenc Deszõ Blaskó)

 


 

Provavelmente foi o ator mais conhecido desta leva. Os motivos desta fama podem ser variados: a sua caracterização de Drácula que virou pop art,  seu fim de carreira trágico, sua memorável atuação como vampiro, etc. O que importa é que sua figura e seu nome se tornaram conhecidos dos fãs de horror e muitos destes por sua causa foram apresentados aos filmes clássicos do gênero e sua importância para a continuação do filão foi grande. Digo isto porque caso Drácula de 1931 não tivesse dado certo, provavelmente a inserção do gênero no cinema americano iria ser mais difícil. Além disso, se hoje os vampiros são caracterizados como seres sedutores, galantes e tétricos devemos isto á caracterização de Lugosi, que se opunha ao Drácula monstruoso e repulsivo de Bram Stoker.

Lugosi nasceu em 20 de outubro de 1882, na cidade de Lugoj, no então Império Austro-Hungáro. Vindo de uma família pobre, começou a atuar em uma companhia teatral ainda na adolescência. Sua situação no período da Primeira Guerra Mundial é mais um dos mistérios em sua vida: fontes asseguram que ele chegou ao posto de tenente de infantaria e saiu do serviço por ter sido ferido três vezes em combate: outros dizem que nem chegou a servir após se passar por louco. O que houve de fato após a guerra foi sua expulsão do país por causa de suas opiniões políticas, buscando exílio na Alemanha. Passou pouco tempo neste país, indo viver numa comunidade húngaro-americana nos Estados Unidos.

 

 

 

Lugosi como Drácula.

 

 

 

 

Após chegar na América, o ator participou da companhia teatral da comunidade húngaro-americana e chamou a atenção de John Balderston, que estava produzindo uma adaptação teatral do livro Drácula, de Bram Stoker. A sua fama então estava trilhada. Sua fala pesada (aliada ao fato de o mesmo ainda não estar tão familiarizado ao inglês), seus movimentos fortes e sua face espectral o fizeram assustar multidões, e quando a Universal adaptou o livro para o cinema em 1931, foi uma escolha ideal (apesar de ele ter sido contratado por outros fatores, principalmente econômicos, após as principais escolhas para o papel se tornarem inviáveis e Lugosi aceitar um pagamento baixo). O filme foi um sucesso e Lugosi atuou em vários outros filmes de horror para a companhia, como Os Assassinatos na Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue, 1932), O Gato Preto (The Black Cat, 1934), O Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939), dentre outros. Sua imagem se tornou conhecida e sua carreira decolou bastante na década de 30.

Porém, após o declínio do gênero nos anos 40, Lugosi encontrou grandes dificuldades para conseguir papéis. Como fator agravante, Lugosi foi mais um dos atores que ficou coma alcunha de “ator de um papel só”: após Drácula, os estúdios sempre o associavam ao vampiro, e isto prejudicou Lugosi em obter papéis diferentes. Na década de 40 Lugosi atuou em diversas produções de baixo orçamento, e muitas vezes repetindo seu papel de vampiro. A coisa só piorou nos anos 50 e o ator, já consumido pelo vício da morfina, aparecia em cineclubes para apresentar exibições de seus antigos filmes de horror para conseguir algum dinheiro. Então, o “infame” diretor Ed Wood resgatou o vampirão do ostracismo e lhe deu papéis em suas produções (na verdade uma tentativa de chamar a atenção para seus filmes Z) e financiou seu tratamento contra a dependência.

A parceria gerou pérolas do trash e teve como capítulo final o cult Plan 9 from Outer Space (na verdade Lugosi não atuou no filme, as cenas foram gravações aleatórias colocadas no filme por Wood). Lugosi faleceu no dia 16 de agosto de 1956. Foi sepultado com o traje de Drácula por vontade de seu filho e sua ex-esposa (ao contrário do que dizem que isto teria sido idéia do próprio Lugosi). Muitos dizem que Lugosi era mau ator. Na verdade não teve oportunidades de explorar seu potencial. Fez atuações excelentes, como o sarcástico Ygor de Son of Frankenstein e Ghost of Frankenstein, o comissário Razinin de Ninotchka e o sinistro Dr. Vitus Werdegast de The Black Cat. A grande infelicidade foi  sua vida ter declinado junto com o gênero que ajudou a moldar, o fazendo ser esquecido pelos grandes estúdios. Hoje em dia, temos a certeza de que Lugosi foi importante não só para o horror, mas como para o cinema em geral e que seu nome estará presente para sempre em qualquer lista dos maiores ícones do cinema fantástico.

 

 

 

Boris Karloff (William Henry Pratt)

 


 

 

Karloff foi outro gigante do cinema e seu principal papel também ficou imortalizado no cinema. Se hoje em dia vemos aquela caracterização do monstro de Frankenstein típica até em desenhos, isso se deve à imagem do monstro por Karloff na década de 30. Além de sua versatilidade como o Monstro de Frankenstein e a Múmia, o seu jeito gentleman garantiu-lhe diversas oportunidades fora do cinema de horror, o tornando um ator bastante versátil.

Karloff nasceu no dia 23 de novembro de 1887, na cidade de Londres, na Inglaterra. Foi criado em uma família de boas condições e teve uma boa educação. Em 1909 descobriu a capacidade de atuar e em 1910 emigrou para o Canadá. Lá atuou em diversos filmes mudos e companhias teatrais, até conseguir papéis de maior expressão nos Estados Unidos, como nos filmes The Devil´s Chaplain (1929) e Graft (1931). Porém, seu alcance ao estrelato foi de certa forma por acaso: o diretor James Whale estava no restaurante do estúdio discutindo com um membro da produção de Frankenstein sobre qual ator faria o papel do monstro (há fontes que afirmam que esta conversa ocorreu após a recusa de Bela Lugosi para fazer o papel do monstro, mas isto nunca ficou muito claro), quando o diretor viu Karloff sentado a uma mesa perto. Ao ver a estrutura facial de Karloff, aliada a sua estatura, Whale o convidou para dar vida ao monstro. Este aceitou e fez a maior escolha de sua vida, alcançando a fama após ter participado de mais de 100 filmes.

 

 

 

Karloff no papel que lhe deu fama, em Frankenstein (1931).

 

 

 

 

Frankenstein de 1931 foi um grande sucesso, aproveitando o sucesso da produção anterior, Drácula, e lançou Karloff ao estrelato. A atuação de Karloff foi espetacular, dando ao personagem toda a dramaticidade e mistério que a criatura possuía. Diferente do que aconteceu com Lugosi, Karloff não ficou estereotipado pela imagem do monstro e atuou em dezenas de obras, nos mais variados tipos de papel e filmes. Porém, como era de se esperar, assumiu mais uma vez a imagem do monstro no clássico absoluto A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935) e Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939), além de aparecer como o cientista louco de A Casa de Frankenstein (House of Frankenstein, 1945).

O ator também foi afetado pelo declínio do gênero na década de 40 e os papéis em filmes de horror rarearam, tendo assim atuado em alguns filmes de mistério e até comédia. Com o ressurgimento do filão do horror no meio da década de 50 o ator voltou a interpretar personagens bizarros e mais uma vez nos brindou com clássicos absolutos como Black Sabbath (I Tre Volti de la Paura, 1963), O Corvo (The Raven, 1963) e Farsa Trágica (Comedy of Terrors, 1964). Sua saúde então começou a ficar debilitada, mas mesmo assim Karloff não desistiu de atuar. Em seus últimos filmes chegou a gravar de cadeira de rodas e com aparência totalmente debilitada. O grande ator faleceu no dia 2 de fevereiro de 1969, aos 81 anos de idade. Seus últimos filmes foram lançados até o ano de 1971. Não só o horror ficou órfão, como também o cinema em geral perdeu um de seus maiores atores.

 

 

 

Lon Chaney Jr. (Creighton Tull Chaney)

 

 

 


É de fato curioso que um dos maiores atores do cinema mudo, Lon Chaney, não desejasse a carreira de ator para seu filho. Realmente naquela época era uma carreira que não dava muito retorno, tendo inclusive o próprio Chaney passado por maus bocados devido à falta de grana. Porém, mesmo assim surpreende pelo fato de Chaney ter sido um verdadeiro apaixonado pelo que fazia, negar a “magia da tela e dos palcos” ao seu progênito. Mas com o desenrolar do destino o grande Chaney infelizmente faleceu cedo e seu filho se viu livre para investir na carreira cinematográfica.

Lon Chaney Jr. nasceu em 10 de fevereiro de 1906, em Oklahoma City, Estados Unidos. Desde pequeno já enfrentou grandes dificuldades na vida, tendo sido enviado para uma instituição para órfãos aos 8 anos após sua mãe tentar suicídio, devido à conturbada vida com Lon Chaney Sr.. Retornou ao convívio com o pai em 1915 quando este se casou novamente e pode comprar uma casa. Creighton desempenhou diversas funções na vida, apesar de sempre pensar em ser ator. Como seu pai desaprovava a idéia, Creighton começou a atuar apenas em 1931, após a morte de seu pai.

 

 

 

 

A década de 30 foi um período praticamente sem destaque para o ator, fazendo pequenas aparições em filmes. Porém, em 1939, e agora assinando como Lon Chaney Jr., o ator teve uma grande oportunidade e soube aproveitar-la, no filme Sobre Ratos e Homens (Of Mice and Man, 1939). Com o sucesso da obra, Chaney obteve um contrato com a Universal e em 1941 estrelou o clássico que o tornaria famoso: O Lobisomem (The Wolfman). Chaney Jr. deu vida a Larry Talbot, que ao mesmo tempo associava uma grande carga dramática e a selvageria de um monstro. O filme foi um enorme sucesso e abriu o caminho para Chaney Jr. estrelar diversas películas, dentre elas O Fantasma de Frankenstein (The Ghost of Frankenstein, 1942), O Túmulo da Múmia (The Mummy´s Tomb, 1942), A Casa de Frankenstein (House of Frakenstein, 1944), dentre outros. Um fato muito curioso é que Chaney Jr. foi o único ator a interpretar todos os monstros sagrados da Universal.

 

 

 

Chaney no clássico O Lobisomem (1941).

 

 

Assim como Karloff e Lugosi, Chaney Jr. encontrou dificuldades a partir da metade da década de 40, no declínio do gênero. Além disso, se afundou cada vez mais no alcoolismo e teve diversas crises de depressão, tendo inclusive tentado suicídio nos sets de filmagens de Abbott and Costello meets Frankenstein. Na década de 50, voltou a ser chamado para produções do gênero, além de ter atuado em vários filmes e séries western. Porém nunca mais alcançou a fama que teve, ao contrário de Karloff.

Faleceu em 12 de julho de 1973, aos 67 anos, sofrendo um ataque cardíaco. Longe de sua vida pessoal, cheia de problemas, o ator nos deixou para a eternidade personagens desenvolvidos, cenas clássicas e o toque magistral dos Chaney na sétima arte. Foi o último grande ator especializado em terror da primeira leva de filmes do gênero.

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P.S: Talvez você possa me questionar por ter retratado apenas estes atores, quando diversos outros astros atuaram em grande escala nas produções do gênero, como Claude Rains, Basil Rathbone, Lionel Atwill, John Carradine, dentre outros. Obviamente também devem ser enquadrados nesta categoria os excelentes Conrad Veidt, Max Schreck, Emil Jennings dentre outros que contribuíram no Expressionismo Alemão, origem do cinema de horror. Eles também tiveram uma enorme importância, mas eu acredito que por estes terem tido uma atividade maior em outros gêneros, além de não terem tido mais da metade de papéis na vida dentro do gênero, se enquadrariam em uma outra categoria, não a de primeiros atores sagrados do horror. Prometo que em breve farei um artigo sobre estes outros importantes elementos do cinema de horror.


Alice no País das Maravilhas (2010) – Um tropeço no meio do caminho

Um dos filmes mais esperados desse ano, Alice arrebentou nas bilheterias de todo o mundo. O diretor desta obra foi o conhecido e experimental Tim Burton, realizador de clássicos como Edward Mãos de Tesoura. Sua maior característica é sua excentricidade com os filmes, sempre enchendo as obras de temas e referências um tanto curiosas. Em Alice, uma história um tanto imaginativa e repleta de personagens únicos, isso seria um balde cheio para um cara como Burton. Daí eu pergunto por que o resultado final foi de certa forma “abaixo do esperado”.

Alerto que Alice é um filme com alguns bons momentos. Tem momentos bastante divertidos e é uma interessante experiência assisti-lo em 3D. O problema é que a sensação que temos é de que Burton juntou 2 média metragens: o filme se perde demais após sua metade. Bom, vamos por partes: em primeiro lugar, a Disney entregou o projeto para Burton com alguma coisa já realizada. Este então finalizou o que a Disney já havia esboçado. Talvez o motivo para uma obra de certa forma inconstante.

O roteiro conta a história de Alice (Mia Wasikowska) já adolescente, com 17 anos. Pois bem, ela está prestes a ter sua mão pedida em casamento por um burguesinho chato, em uma festa em que seus familiares estão presentes. Ela está confusa por isso, além de ter sonhos com o “país das maravilhas” todos os dias, desde a infância. Confusa, ela sai da festa e segue o Coelho Branco até uma arvóre, onde ela cai em um buraco e vai parar no mundo fantasioso. Lá, ela encontra com as criaturas do mundo de fantasia e descobre que o coelho a atraiu para salva-los da Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter).  Ela é apresentada ao Chapeleiro Maluco (Johnny Depp), Chesire (dublado por Stephen Fry) e outros personagens e então sabendo por que está ali começa a fugir dos soldados da Rainha Vermelha que a perseguem. O que acontece de fato é que ela já esteve lá com 7 anos, porém não se lembrava.

Pois bem, apesar do belo visual e um bom cast, o que temos aqui é incrivelmente inconstante. Burton seguiu bem a idéia da história de Alice nos primeiros 30 minutos, mostrando sua interação com as criaturas que vivem em Wonderland, sua ousadia, sua desconfiança e alguns diálogos engraçados. Porém, após isso o que temos é uma série de perseguições, personagens que deveriam ser engraçados não sendo, mais perseguições, efeitos esplendorosos, perseguições, etc. Além disso, agora Alice está lá para vestir uma armadura (!), empunhar uma espada sagrada (!!!!!!) e matar um dragão gigante (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!), para salvar seus amigos e acabar com o reinado da Rainha Vermelha.

Sinceramente foi um susto ver o Chapeleiro Maluco não maluco, e sim quase “romântico” neste filme. Também não entendi absolutamente como Anne Hathaway deixou a Rainha Branca um verdadeiro saco. Deu vontade de ver a Rainha Vermelha dando “um sacode” nela, heheheh. Além de os outros personagens clássicos (com exceção de Chesire) terem tido pouco espaço e Tim Burton ter deixado de lado suas clássicas características. Sinceramente nunca fui fã de Alice, mas consegui identificar tais diferenças berrantes mesmo assim. Então gostaria que você, se for fã, deixasse aqui também coisas inevitáveis que foram deixadas de lado. Sobre a produção, deixo registrado que é impecável, com belos efeitos e um som de primeira.

Mesmo não sendo um filme ruim, é meio assombroso ver que Tim Burton, pegando uma história que originalmente já era bizarra e cheia de simbolismos, tenha tomado um direcionamento tão estranho. Pois, quem assumiu a cadeira foi o mesmo que criou o estranho e agradável A Noiva Cadáver e o cult Edward Mãos de Tesoura. E aqui desperdiçou uma grande chance de retratar como só ele sabe um dos mais clássicos e curiosos contos infantis.

Nota: 6,0

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País de Produção: Estado Unidos

Ano de Lançamento: 2010

Estúdio: Disney

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Elenco:

Mia Wasikowska (Alice)

Johnny Depp (Chapeleiro Maluco)

Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha)

Anne Hathaway (Rainha Branca)

Crispin Glover (Stayne)

Michael Sheen (Coelho Branco)

Alan Rickman (Lagarta Azul)

Edição: Chris Lebenzon

Música: Danny Elfman

Cinematografia: Darius Wolski

Direção de Arte: Tim Browning

Produção: Joe Roth, Suzanne Todd e Richard D. Zanuck

Roteiro: Linda Woolverton, baseado na história de Lewis Carroll

Direção: Tim Burton

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Trailer Original


Chaplin (1992) – A vida do gênio na tela que ele popularizou

Filmes biográficos são, na minha opinião, trabalhos muito arriscados. Além de um estudo minucioso sobre a vida do referido, a equipe de produção deve ainda fazer uma análise do mundo à volta do personagem e fazer fluir o impacto sobre o personagem de forma não artificial. Chaplin é um filme que cumpre seu papel e nós traz uma narrativa sobre a trajetória deste gênio, num andamento repleto de momentos emocionantes e alguns levemente cômicos, inspirados no estilo das próprias obras de Charlie.

O espectador é apresentado à trajetória de Chaplin iniciando de sua infância até os tempos em que obteve destaque na Keystone e fundou a United Artists. Com a sua ascensão no cinema, Chaplin obteve um grande destaque no mundo artístico e rapidamente se tornou detentor de uma grande fortuna. Em contraste a isto, o  diretor Richard Attenborough utilizou os dramas pessoais de Chaplin para mostrar que mesmo com a fama o ator era uma pessoa com vários problemas. Como na autobiografia de Chaplin, cujo roteiro é baseado, o filme explora a relação de Chaplin com suas várias experiências amorosas e posteriores conflitos. Além disso, é importante ressaltar a boa retratação do período em que Chaplin passou a ser investigado pelo FBI, o impacto de produção e lançamento de O Grande Ditador e seu posterior exílio.

O cast de bons atores torna o resultado ainda mais satisfatório. Robert Downey Jr. faz uma boa atuação, apesar de em muitos momentos eu achar que o ator se conteve demais. Anthony Hopkins ainda vivia seus bons tempos e garante firmeza ao seu reporter George Hayden, curiosamente o único personagem fictício de destaque no filme. Vale também destacar a atuação de Geraldine Chaplin, filha do cineasta, interpretando a desequilibrada Hannah Chaplin, sua própria avó. A adaptação da história foi boa e seguiu literalmente vários pontos do livro Minha Vida, porém, como era de se esperar, falhou em alguns momentos ao retratar Charlie de forma tão trágica. Sabemos que Chaplin teve uma conturbada vida pessoal, mas às vezes o filme passa a impressão de que tudo na vida do cineasta era um inferno. Num filme sobre um dos maiores gênios do cinema, ficou faltando um pouco do que ele mais nos trouxe através da tela: alegria. Mesmo que em alguns momentos haja humor, e até mesmo cenas de seus filmes recriadas, fica a impressão de que Charlie era um homem “rabugento”.

Mesmo com algumas falhas da retratação, Chaplin retrata bem a vida do gênio do cinema. Quando vejo este filme, fico com “nostalgia de uma época que não vivi”, ao ver os atores interpretando as relações de  Chaplin, Douglas Fairbanks e Mary Pickford numa época em que o cinema era uma das mais genuínas expressões da arte e mente humana. Curioso também é ver como o governo americano perseguiu duramente uma das pessoas que ajudou a popularizar um dos meios que na época de sua perseguição já era uma grande fonte de exploração capitalista… Enfim, Chaplin é um filme totalmente recomendado, uma viagem no tempo e vida de um dos maiores ícones da arte mundial.

Nota: 8,0


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País de Produção: Inglaterra/ Estados Unidos/ França

Ano de Produção: 1992

Distribuição: Carolco Pictures/ Canal +

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Elenco:

Robert Downey Jr. (Charles Chaplin)

Anthony Hopkins  (George Hayden)

Paul Rhys (Sidney Chaplin)

Geraldine Chaplin (Hannah Chaplin)

Kevin Kline (Douglas Fairbanks)

Maria Pitillo (May Pickford)

Moira Kelly (Oona O’Neil)

John Tawn (Fred Karno)

Milla Jovovich (Mildred Harris)

Kevin Dunn (Edgar Hoover)

Direção de arte: Stuart Craig

Fotografia: Sven Nykvist

Música: John Barry e José Padilla

Roteiro: Willian Boyd e Briand Formes, baseado nos livros Minha Vida de Charles Chaplin e Chaplin: Vida e Arte de David Robinson

Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar e Terence A. Clegg

Direção: Richard Attenborough

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Trailer Original